sexta-feira, 21 de março de 2014

"asas"

Rasguei contratos
Arruinei tratados
Picotei gravatas
Pulei muros
Chutei baldes
Quebrei pratos
Afrouxei cordas
Soltei amarras
Cruzei fronteiras
Pulei dos barcos
Chutei bundas
Virei copos
Pisei nos rabos
Ri dos rituais
Acendi fogos
Queimei roupas
Chacoalhei as canoas
Derrapei nas curvas
Mostrei a língua
Ri pacas
Fiz careta
Abri  gaiolas
Soltei os bichos
E quando vieram me prender...
Bati asas

Roberto Axe
                                                                                


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

O CLUBE - sinopse do livro

Neste livro, vamos colar em Enzo Caio e acompanhá-lo em sua estranha trajetória. Enzo é um escritor iniciante e medíocre de livros de terror, que mesmo antes de ver seu primeiro trabalho nas prateleiras, recebe a misteriosa visita de um veterano autor deste gênero de obras. Seu nome é Rodolfo Zattan. Zattan é cobra criada no tocante aos chamados livros negros, livros nos quais são narradas experiências assombrosas com extremo realismo. Para receber o rótulo de livro negro, distinção que garante o sucesso de vendas, é necessário que seu autor saiba ‘literalmente’ do que está falando, ou seja, de suas próprias experiências. Se Enzo quiser alcançar o êxito nesta modalidade de literatura, deverá aceitar o convite de Zattan e pertencer a um grupo de autores psicopatas e assassinos que formam uma obscura agremiação: O Clube. Sob a proteção hermética das paredes de um castelo retirado, esses autores de livros negros dão vazão aos instintos mais sinistros e sangrentos. Tudo pela ‘Arte Negra’ pregam eles. Enzo, mesmo temeroso, aceita o convite, pois vê aí a chance de revelar ao mundo a brutal irmandade através de uma obra que obrigatoriamente deverá tornar-se um best-seller e alçar seu nome à fama mundial. O escritor, sem demora, passa a freqüentar o castelo e seus horrores, mergulhando em um pesadelo horripilante. A sombra então abre suas asas e revela um enfrentamento demoníaco, do autor contra o pior assassino que sequer alguma vez poderia imaginar; um assassino obscuro, silencioso, terrível... aquele que mora nele mesmo...   


O CLUBE - Prefácio do livro

Até aonde podemos cair quando o abismo se abre aos nossos pés, quando despencamos na imensidão de nós mesmos? Quando uma infinidade de possibilidades nos é apresentada, jogada em nossa cara? Creio que somos feitos das portas que abrimos, e também, das que fechamos. Enzo Caio, o protagonista deste livro, irá enfrentar as conseqüências de abrir portas. Abrir portas requer coragem, requer honestidade. Nem tudo são flores quando cruzamos soleiras, umbrais; quando cruzamos divisórias que há muito, muito tempo, nos dizem serem proibidas, e nos aconselham a não tocar em seus trincos, a não encará-las; mas convenhamos, não há nada que nos atraia mais do que as coisas proibidas. Os dedos medrosos e trêmulos que nos apontam essas portas e nos pedem para que fiquemos longe, são os mesmo que espargem a moral asséptica que crêem poder protegê-los, porém, nem tudo é tão simples. Existem os aventureiros que aceitam esse desafio e vão em frente sabendo que mais adiante terão de arcar com as conseqüências. Ah... as conseqüências... sim, é de como voltamos da aventura que conta, o que trazemos em nossas mãos, ou o sangue que escorre de nosso olho, enfim, o que encontraremos ao voltar a olharmo-nos no espelho. Enzo Caio aceitou o desafio, pois se julgava um escritor medíocre e não tendo nada a perder, concluiu que ao juntar-se aos cruzadores de portas e depois escrever sobre eles lhe traria a fama, a fortuna e o respeito da mulher amada. Mas, novamente, nada é tão simples...  as decisões que tomamos podem trazer conseqüências, principalmente se pensarmos só em fama e fortuna. Se por um lado existem os dedos medrosos que aconselham a distância e o temor das referidas portas, por outro existem as mãos suaves e cavalheirescas que as abrem e formulam o convite ao desconhecido. Nosso herói tem de pagar um preço, mas estaria pronto para isso? Esta é a proposta que lhe é feita por um autor veterano, pois este acredita que a escrita exangue e ingênua de Enzo se dá justamente por este não cruzar os portais certos. Um outro mundo é apresentado ao nosso protagonista, um mundo que cheira à faca, sangue, e carne... ‘gosta da carne, Enzo?’ esta é uma pergunta que confundirá o novato escritor, e será um dos tantos fatores que o empurrarão para a queda em um abismo sombrio; um corpo que cai livre, solitário, desnudo e sem máscara, na imensidão de si mesmo.  Agora já não tem volta, as máscaras caíram, despedaçaram-se e as portas já estão abertas... então, restam as conseqüências e como lidar com elas. Enzo Caio descobrirá que ninguém é tão simples quanto parece e que ele não era tão simples quanto imaginava. Ma isso é bom ou ruim, é ‘bom’ ou ‘mau’? É o que Enzo vai saber, sentindo um amargo [ou doce?] gosto de crime na boca. Ao deixar pelo caminho a antiga pele para trás, tal qual uma cobra, verá descortinada à sua frente a possibilidade de ser um novo homem, mas, quem será este? O caro leitor saberá em breve...
 Neste livro abordo mais uma vez a dança perpétua entre luz e sombras e, também mais uma vez, ao fazê-lo, deixo de lado aquela velha carrancuda e ladina chamada “Moral”, velha esta que com seu tempero caseiro contamina tudo com aquele ‘e viveram felizes para sempre’; prefiro a vida real e os caminhos e descaminhos que ela implica; é mais interessante e mais divertido! E se tem uma coisa para qual não nasci é para o tal ‘vale de lágrimas’, que a velhota essa tanto ama. Prefiro esta dança misteriosa: a da luz e sombra... mas lembrem-se, é a luz que ilumina a porta e ela vai só até ali, depois, bem, depois estamos por nossa conta, como é o caso de Enzo Caio. Em tempo, é bom avisar aos navegantes: às almas singelas e impressionáveis não aconselho a leitura deste livro, aos demais, boa leitura.     






                                                                                              Roberto Axe



terça-feira, 18 de junho de 2013

A FESTA DE MADAME CLITÓRIS


Madame Clitóris deu uma festa.

E que festa!

A coisa se deu na eminente residência de Mme Clitóris. Muitos convidados importantes. A nata cultural e artística da cidade. Para vocês terem uma idéia, até uma pequena orquestra foi improvisada no grande salão da mansão. A orquestra contava com Dr. Ataúde tocando episódio, Sr. Potreiro tocando baluarte, Dona Colméia tocando faxina, Dona Lisura tocando lágrima e Seu Alhures dedilhando a carreata.  Coisa linda de se ver e escutar. Foi uma pena Dona Virilha ter chegado atrasada, mas todos entendiam, afinal, fizera uma operação para retirada de um colostro no ombro esquerdo e aproveitara para remover um pirralho que há muito havia surgido em seu nariz. Tudo correu bem. Seu respeitável marido Sr. Gangrena também se submetera a uma intervenção, nada de mais, foi só para corrigir um desvio de pinguela nas costas. Outro convidado que passou por um susto foi o Senhor Curral, que descobriu um alcalóide no braço, mas graças a um tratamento à base de apnéia e injeções de musselina, conseguiu curar-se. Bem, mas falemos um pouco do que foi servido aos convivas. Madame Clitóris caprichou no jantar, vejamos: de entrada uma sopa de baganas belgas com chocalhos e afagos africanos. Como prato principal, uma bela compostela com grisalhos ao molho de candeeiro. Como sobremesa foram servidos faniquitos com larápios silvestres. Para beber, um caprino de boa safra. Uma delícia, todos concordaram. Depois do jantar os convidados reuniram-se no salão para uma boa conversa. Alguns lembraram que aquele casarão já fora assombrado por calúnias penadas e alguns juraram já tê-las visto... “Ao chegar aqui, juro que vi uma calúnia lá no jardim, juro, juro...” afirmou Dr. Cemitério, mas ninguém o levou muito a sério. Lá fora as crianças brincavam na corriola, fazendo grande balbúrdia. No salão os presentes conversavam animados quando Sr. Medonho sentiu-se mal e teve de ser amparado e acomodado em um confortável poltrão que ficava em um canto da sala. Recomposto, Sr. Medonho admitiu que sofria de um insulto no coração e de vez em quando tossia até botar as bazófias pra fora.  Nada que não pudesse controlar com pílulas de tamborim e algumas aplicações de melindrosa. Dr. Pancrácio, médico, ali presente, recomendou-lhe algumas pílulas de urinol, mas sempre em jejum. Depois do susto todos voltaram a conversar os mais variados assuntos. Dona Gengiva vangloriava-se de que seu filho iria formar-se ao final do ano em flatulência gerencial, e que sempre fora talhado para isso.  Dona Miséria estava aliviada, dizia, pois a filha havia finalmente curado uma verborréia que lhe surgira há alguns anos na língua. Sr Asneira comentava uma viagem que fez ao sul de Framboesa, afirmando não haver praias mais lindas, de águas límpidas, através das quais se pode ver os fetiches e os frouxos nadando tranqüilamente. Disse que aproveitou também sua estadia na Framboesa para conhecer as Ilhas Silábicas e suas ruínas históricas, pois lá viveram os carrancudos, povo guerreiro e de poucos amigos.

Todos bebericavam chilique.   


Dona Faringe, que adorava salada de ceroulas, ponderou que mesmo que a anfitriã não tenha servido a salada de seu gosto, pelo menos poderia disponibilizar um tantinho de molho de fuleiros, que ela sabia, Mme Clitóris havia importado da Crisálida. É claro que esses comentários eram feitos à boca miúda, pois ninguém ousava afrontar a dona da casa, que aliás, surpreendeu a todos ao servir, mais tarde, uma grande falácia doce com calda de asneiras. Foi uma grande comilança, Mme Clitóris gostava assim.  Foi só lá pelas altas da madrugada que os convidados, enfim, partiram, quase em bando... “Parece até um bando de compotas” comentou Mme Clitóris com uma criada, lembrando daqueles simpáticos animaizinhos que habitam o sul do Carnegão. Enfim a sós, Mme suspirou cansada, mas já imaginava o que serviria em alguma festinha vindoura “Talvez um amálgama com saborosos garranchos, quem sabe...” , foi para o quarto e desabou, exausta, em sua cama, nem removeu a traquinagem de seu rosto. Agora só queria dormir... dormir... dormir... e que sabe, sonhar com o que mais gostava... um imenso e intenso vergalhão... daqueles, lá das Ilhas Anarquias...                        

terça-feira, 30 de abril de 2013

Helena e a Janela

Nada intrigava mais suas amigas.

Sim, essa mania, estranha mania, ou até quem sabe, esse melancólico vício. Desde que seu marido a abandonara Helena não saía da janela. Parada, olhar perdido, poucas palavras, tristeza, melancolia...  Helena agora sempre prostrada, aquele olhar mortiço, indiferente. Certo, essa atitude quase mórbida as amigas podiam entender, afinal, fora abandonada feito um brinquedo velho por aquele cara ordinário que nunca prestou mesmo; o que encasquetava as mulheres era a mania de Helena ficar a olhar pela janela dos fundos e não, pelo menos, ficar junto à janela da frente vendo o movimento na rua, pelo menos...  Quem sabe – comentavam – ela faça isso como um sinal de protesto, como se deixasse claro de que não quer mais nada com o mundo exterior. Aquelas ruas pelas quais o desgraçado evadiu-se para sempre, ruas sujas, escrotas, más! Quem precisa delas? Bastava-lhe seu mundinho, sua casa, casa vazia, solidão, solidão...

As amigas tentavam levantar o Moral de Helena em vão. Reuniam-se, chegavam juntas para visitas, traziam bolos, chás, vinho, revistas, mas a mulher apenas esforçava-se para ser simpática, nada mais. Passados alguns minutos depois da chegada das amigas, Helena, quase num gesto mecânico, postava-se diante da janela dos fundos e ficava com o olhar perdido. Pobre Helena. Cada vez mais pálida, as olheiras engolindo lentamente seus olhos tristes, a mulher sempre de costas para a rua, na janela dos fundos. Pobre Helena.

As amigas combinaram que não iam desistir da sofredora, ora, ela era sempre tão alegre antes daquele canalha abandoná-la, aquele escroto que era dado à bebida e à jogatina e que disse certa vez: “um dia saio por essa porta e não volto mais! E você vai passar o resto de sua vida olhando por essa janela esperando eu voltar!” . Helena negava-se a isso, com certeza, era uma vitória pessoal não fazer o que danado previu do alto de sua soberba. As amigas sabiam das coisas. A pobre mulher cansara de esperar pelo marido durante as madrugadas frias, ali, na janela e já até acostumara-se quando enfim lá pelas tantas ele despontava trôpego pela rua e, cara de pau que era, vinha chamando seu nome “Helena! Helena!” não raras vezes abaixo de chuva.

Um dia as amigas forçaram a barra, não sairiam de sua casa se ela não lhes revelasse o segredo da janela... “por que a dos fundos e não a da frente?”

Helena contou às amigas, entre soluços, que foi depois de uma  dessas saídas noturnas que o bandido não voltou mais e na ocasião, como sempre, ficara de plantão junto à janela que dá para a rua, esperando o filho da puta voltar, bêbado, sempre gritando seu nome, sempre descomposto. Mas nunca mais voltou. Jurara desde então que nunca mais ficaria junto à janela que dava para a rua esperando seu homem, não, jurara, não, nunca mais.

As amigas deram-se por satisfeitas e a abraçaram, logo depois pediram desculpas, mas tinham de partir, pois um grande temporal formava-se e já estava escurecendo. “Tudo bem” disse a anfitriã. As mulheres partiram.

Temporal.

Solidão.

Chuva que cai torrencial...

Janela dos fundos.

Casa escura.

Olhos cravados no quintal, como sempre... pupilas dilatadas, chuva crepitando ruidosa no solo arenoso. Relâmpagos clareiam o semblante fechado da mulher. Semblante de preocupação... preocupação com essa enxurrada desgraçada que da última vez  lambeu o pátio com sua volúpia louca de tormenta e quase revela  a cova rasa, ali, bem ali, à frente da qual, quieta, ela passa parte dos dias e das noites, mas as amigas não sabem

terça-feira, 19 de março de 2013

O CASO CRISTINA


Pois é meus caros amigos...

Fosse eu alguém cujo sono embalasse com sua doçura balsâmica tão logo colocasse a cabeça no travesseiro, talvez esta situação não me incomodasse tanto. Mas não, minha indefectível insônia há muito vem protagonizada por uma mulher chamada Cristina. Não é que a Cristina não me saia da cabeça, não, não é isso, o que não me sai da cabeça é a dúvida se ela, minha cabeça, começou a me pregar peças ou não. Estarei enlouquecendo? Talvez, mas garanto a todos que este é um caso em que: ou estou louco, ou todo mundo está! Parece um pouco confuso? Bem, para entenderem a coisa, eis a história.

Há muitos, mas muitos anos mesmo, que nossa turma de amigos reúne-se em jantares ocasionais, principalmente em aniversários. Como não podia deixar de ser, com o passar do tempo as pessoas casam, constituem família, e suas presenças nesses eventos vão tornando-se mais raras, pois o envolvimento com filhos e outras atribuições do cotidiano contribuem diretamente para essa diáspora. Nada mais natural. Natural também é o fato de que quando depois de um bom tempo alguns ‘sumidos’ retornem a esse efêmero convívio, sejam saudados com carinho e euforia...Pois bem... é aí que o mistério começa. 

Quando em uma dessas ocasiões, Cristina chegou com o marido. Foi muito festejada, pois realmente havia anos que ela não dava o ar da graça em nossos jantares. Cristina casou com Celso, sujeito de poucas palavras e de uma simpatia forçada – para não dizer duvidosa – como alguém que deixasse claro que se não fosse pela esposa, ele não estaria ali. Celso nunca foi da turma, Cristina o conhecera alhures e desaparecera por bom tempo para criar filhos e essas coisas... enfim, agora depois de muitos anos, voltava. De minha parte, em outras ocasiões, sempre a recebi com gentileza e alegria, até porque no passado, quando ainda era solteira, tivemos um rápido caso. Era por conta desse caso que nossos olhares assumiam um ar de cumplicidade tão logo se encontravam, era involuntário, coisa de um carinho mútuo – talvez permeado por pequenos ódios invisíveis, pequenas frustrações, nunca se sabe – e de uma camaradagem espontânea. Nesses jantares perguntávamo-nos sobre qualquer bobagem, quase que aguardando a resposta só para rirmos e darmos vazão ao gozo cúmplice e secreto de nosso encontro. Quanto a Celso, a tudo acompanhava meio alheio e carrancudo. Até aí tudo bem, mas veio o jantar em questão. Cristina e Celso chegaram, houve muitos cumprimentos, risadas, abraços, salamaleques, e um cara chocado... eu.

Aquela mulher com o Celso não era a Cristina!

Meu espanto foi tanto que tive de ir ao banheiro, não sem antes conferir a qualidade da vodka, para lavar o rosto. Não era a Cristina! Mas então... como assim, será que só eu vejo o que ninguém percebe? Quando de minha vez de cumprimentá-la olhei-a bem nos olhos e não encontrei nada, era algo morto, não encontrei o veneno suave que sempre caracterizou seu olhar maroto. Mas realmente isso é o de menos, pois tudo era tão claro, tão berrante! Era outra mulher, outro rosto, outro semblante, outro tudo! Caramba! E todos a saudá-la, inocentemente, como se não percebessem tratar-se de uma impostora! Chamei de canto então um amigo para tirar explicações:

-         Vem cá, irmão, isso é alguma brincadeira? Alguma pegadinha?

-         Como assim? – perguntou surpreso.

-         Ora, não me vem com essa, você não está vendo? Essa mulher não é a Cristina!

-         Cara, cê tá doido?

-         Dá uma olhada daqui, olha lá! porra meu, não tem nada a ver! Olha só aquele rosto... nunca vi na vida! Não é ela!

-         Cara, calma – disse meu amigo com um sorrisinho que me incomodou – tá um pouco diferente, também, quantos anos né? Vai ver fez plástica... sabe como é... puxa aqui ali... mas que é ela é ela! Você tá louco, isso sim!

Fiquei tão indignado que fui embora, inclusive aproveitando a despedida para certificar-me, mais do que nunca, de que aquela mulher não era a Cristina. No caminho de casa fiquei imaginando o que poderia ter sido feito da minha doce amiga. No mínimo aquele marido horroroso a havia matado, se livrado do corpo e posto em prática seus dons hipnóticos... só pode ser, mas comigo não funcionou.  Até hoje não engulo essa. Comentei isso com outros parceiros e todos me tiraram para pirado!

Ah, sim...

Houve outros encontros depois disso, e sempre a mesma coisa; de minha parte desisti. Convivo nessas ocasiões com a impostora, mas é como se estivesse com o fantasma de Cristina, ou nem isso, para mim aquela mulher não é nada! Quanto a Celso, olho-o bem no fundo dos olhos para que fique ciente de que sei de tudo, que sou o único que sabe de tudo, que sou o único que não se deixou levar por sua pantomima sinistra e que um dia, quem sabe, irei desmascará-lo!

E a todas essas, a minha insônia...

E a dúvida

Cruel

Se não estou, realmente, enlouquecendo...

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Dr. Gouveia Fez Merda...


Dr. Gouveia fez merda.

E agora?

E agora Dr.Gouveia, que é muito importante, precisa limpar o que fez.

Como?

Ora, Dr, Gouveia é esperto, há de arrumar um bode expiatório, alguém com costas sujas nas quais mais merda ou menos merda dê na mesma merda...

Os funcionários de confiança do Dr. Gouveia já sabiam em quem botar a culpa. Ah, os funcionários de confiança do Dr. Gouveia, respeitável Dr. Gouveia... Ele tinha muitos amigos, mas poucos de confiança, daqueles que varrem para debaixo do tapete as merdas do Dr. Gouveia.

Esses amigos tiveram uma idéia. Conheciam um vagabundo, drogado, bêbado, desqualificado, imoral [Dr. Gouveia amava esta palavra: Moral], pária, porco... enfim, alguém cujas costas cabiam todos os piores adjetivos que se pudesse imaginar [embora Dr. Gouveia não fosse muito imaginativo] .

Era um tal de Zé da Cola. Cara criado em beco; fumador, bebedor, cheirador, ladrão, maconheiro sem-vergonha. Era só oferecer uma graninha e o Zé toparia abraçar a culpa pelo crime cometido pelo impoluto Dr. Gouveia. Não tinha erro.

E então Zé? Topa ou não topa?

Topo não senhor. Isso aí dá cana grossa... eu, bem, eu rolo por aí... fumo, bebo, cheiro, às vezes bato em alguma puta, já bati carteira, rolei em beco, fui preso por vadiagem, sou escória, sacou. Sou casca grossa, mas isso aí eu topo não, isso é coisa grande... é muita cadeia, é cadeia demais da conta.

Ora, Zé, você é um merda mesmo, o que tem a perder?

Tenho a perder minha fumada, minha cheirada, minhas putas, meus becos, minhas bebedeiras, minha vadiagem.

Então você não perde nada.

Perco tudo.

Mas Zé, perder é da vida... você, mais que ninguém, já devia saber disso.

Caramba, e como sei! Mas, e o tal doutor esse, você já disse pra ele que perder é da vida?

O doutor é um homem sério, não sabe perder. Não gosta de perder... mas você Zé, é um fodido! Pegue essa grana e assuma o crime!

Assumo não. Esta vida errada é tudo que eu tenho. Cacete! É muita maconha, crack, cocaína, cachaça, cola, puta... é muita coisa preu largar...

Você não vale nada mesmo!

Vai lá gente fina, diz pro tal doutor que seja homem uma vez na vida!

E o respeito rapaz! Você sabe de quem está falando? É o Doutor Gouveia!

Esse mesmo, diz pra ele que eu tenho tudo a perder, pois quem me vê já sabe quem sou, o que sou, seja lá que porcaria for...  minha identidade: um desqualificado! Que seja... já o tal doutor quem vê não enxerga o assassino, só enxerga o homem importante, é bom assim né?

Seu insolente! Não custa nada! O corpo... o corpo está aqui no porta-malas e...

Olha meu, diga o que quiser, mas agora vou enrolar unzinho, dar um, dois, e sair pra vida, é isso  irmão...

O doutor vai ficar furioso! 

Não é problema meu, certo?

Dias depois, Dr. Gouveia, que também era político, fez passar uma lei para limpar os becos imundos da cidade. Perseguiu, prendeu, bateu, deu sumisso em todos os vagabundos da área. Foi saudado pela população como o salvador da pátria. Dr. Gouveia aproveitou a boa maré e se candidatou a prefeito. Aos funcionários de confiança, confidenciou que de um limão fez uma limonada e que não era à toa que seu apelido agora era ‘paladino da lei’. Quanto ao defunto, dera outro encaminhamento, ninguém nunca soube de nada. Mas dizem – os funcionários de confiança - que a frustração do Dr. Gouveia pelo vagabundo desqualificado não ceder aos seus dinheiros o incomodou por muito tempo “era só o que faltava” confidenciava o doutor “era só o que faltava... não encontrar ninguém para levar a culpa, é o fim do mundo... definitivamente não dá para confiar nessa gentalha!” esbravejava com grandiloqüência, já treinando seu discurso para prefeito.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

A TRILOGIA - Prefácio


Este é um livro irreverente, haverá quem diga: ‘satânico’. Fala de individualidade e autodescoberta, mesmo que estas importem em afastar-se dos demais, esmiuçar a vida por conta própria e cometer crimes. O protagonista Renato Daemon é um escritor que resolve morar nele mesmo, e não o faz sem passar por descobertas assustadoras e mesmo avassaladoras, no intuito de incorporar sua sombra como fonte de poder. Fazer isto não é para qualquer um, requer uma atitude destemida que obviamente desagrada aqueles que têm uma leitura de mundo bastante simples, os comuns. Ele seguirá em frente, fazendo desta descoberta sua arte e confrontando este novo mundo com o mundo confortável das pessoas corriqueiras, levando isso às últimas conseqüências. Um homem solitário e corajoso que receberá o epíteto de ‘monstro’, por negar-se a refletir os comportamentos aceitos e o pensamento estagnado que aquece os acomodados e até legitima essa inércia. Mas, nem todo mundo é todo mundo, e a mim parece que esta é a equação mais difícil de resolver na cabeça da chamada ‘maioria’. O pensamento gregário reluta em aceitar a originalidade, - vide a Arte - como se esta fosse fazer desmoronar o castelo de areia que foi construído com tanto esmero e paciência para que sirva de abrigo àqueles que não tem coragem de arriscar.  A vida é muito curta e preciosa para nos darmos ao luxo de alguma vez não saltarmos na vastidão negra de nossos abismos mais profundos, mesmo que lá nosso rosto assuma feições demoníacas. Mas, afinal, a quem interessa que não realizemos essa viagem fantástica da autodescoberta? Até mesmo ameaçando-nos com noções de inferno? Deixo a pergunta no ar.  Será mesmo que os arautos da Moral, aqueles que se beneficiam com ela, não possuem vãos escuros na chamada alma? Hmmm...  Bem, Rio Cercado, a cidade onde se desenrola esta estória, é uma localidade acomodada e corriqueira, que tem seu amado sossego quebrado quando percebe que o ‘outro’, o ‘invasor’ é ‘diferente’. A autonomia é algo perigoso aos acomodados e tem de ser, ou não é nada! Sendo planificada – a cidade - e  horizontal em comportamento, é logicamente acéfala [o fato de não ter um prefeito, ou, que este seja irrelevante na história, demonstra isso], porém, o inusitado faz com que algumas nuances humanas se desvelem, e alguns rostos apareçam por detrás das máscaras. Ficar agarrado ao lado apolíneo, desprezando e anatematizando, sempre, as deliciosas artes de Dionísio, só pode gerar pessoas pela metade. Pois bem, que cada um enxergue, então, até onde esse sol de Apolo alcance, e que seja um perigoso abismo o que for para mais além. Mas que nunca se esqueçam: existem  seres que carregam imensos abismos dentro de si, que brincam com luz e escuridão com a habilidade dos mestres! São os ‘diferentes’...  os diferentes dos chamados ‘bons’. O ‘bem’ é um rótulo que abriga todo tipo de hipocrisia, e é sob essa égide, e forçação de barra platônica, que toda uma canalhice existencial se esconde, e a História não nos deixa mentir: Sade nunca matou ninguém, mas era o libertino ‘mau’, já o ‘bom’ Robespierre... [...e não estou emitindo juízo moral aqui, só demonstrando quanto se pode ser hipócrita conforme as circunstâncias]. Pois é... é tudo uma questão de perspectiva [mais uma vez, dá-lhe Nietzsche!]. Bem e Mal são conceitos manobrados de acordo com o momento histórico e as conveniências, nada mais; porém, servirão sempre como esconderijo para todo tipo de gente. Quem não pode criar-se a si próprio, abriga-se sob as coisas e conceitos criados, paciência, mas isso não torna ninguém ‘melhor’, ah, isso não. Um homem versus a Cidade, a Cidade versus um homem, taí uma luta justa, o mau Renato Daemon contra a boa Rio Cercado e vice-versa, que cada contendor use as armas de que dispõe, da maneira que melhor lhe convier.     Enfim, espero que as pessoas inteligentes entendam as metáforas contidas neste livro, as demais, gostaria que ficassem longe dele, pois não faltariam acusações ao autor, tipo: tem uma mente psicopata! Mas... pensando bem, até que isso seria divertido, então a esses eu responderia... ou melhor... seria mais divertido, também, deixar esta resposta no ar...

 

 

 

 

                                                                                                           Roberto Axe

 

                     Porto Alegre, 17 de outubro de 2009.                                         

sexta-feira, 20 de julho de 2012

MEDICALIZAÇÃO



-         Doutor, estou apavorado!

-         Calma, calma...


-         Ontem... ontem... não sei como dizer... tive... tive ímpetos criativos!

-         Putz! Isso não é bom! mas fique tranqüilo já existe remédio. Continue.


-         Pois é... eu estava assistindo televisão, como sempre, quando determinada notícia me tocou profundamente...

-         Calma lá! Como assim, “profundamente”?


-         Não sei explicar. Tocou, tocou, fazer o que? Tocou. Senti alguma coisa em minha cabeça, parecia que se mexia... era uma espécie de volúpia, algo que precisava sair. Reconheço, com vergonha, que senti prazer naquilo, sei lá... parecia que tinha algo realmente se movimentando.

-         Droga! Provavelmente um pensamento, continue.


-         Então me levantei da poltrona, coisa que nunca faço, peguei um pedaço de papel e verti minha indignação na forma, na forma... não sei como dizer isso... na forma de um poema! Pronto falei!

-         Caramba, isso não é bom, mas espero, pelo menos, que dentro de preceitos alexandrinos!


-         Sei lá o que é isso, doutor! Só me expressei, e, diga-se de passagem, preenchi cinco páginas. Eu criei, doutor, criei, vê se pode! Tem cura?

-         Já tem remédio, fique tranqüilo.


-         Ufa! Que alívio....

-         Sobre o que escreveu?


-         Bem eu questionei o ...

-         Você o quê?


-         Questionei o ...

-         Já chega, para mim está bom. Olhe, começa assim, questiona ali, questiona aqui e daqui um pouco você corre o risco de adquirir ‘pensamento crítico’, e lhe garanto, taí uma moléstia difícil de sanar. Bem, você está com sintomas de tendência criativa, está no começo dá para curar. Vou lhe receitar alguns remédios que você sempre encontrará em qualquer farmácia, mas lembre-se: a loucura começa assim, hein? E mais, nunca, em hipótese alguma leia Foucault, entendido?

-         Ler quem?


-         Nada, nada, deixa pra lá.

-         Mas não é tudo, doutor.


-         Não acredito, tem mais?

-         Sim, é que...bem, como o senhor pode ver, sou um homem já em idade avançada, pois é... pasme doutor... eu... eu... eu... eu nunca broxei! e pior, minha libido tá sempre a mil! Estou muito preocupado, doutor, muito preocupado, não é normal isso na minha idade...


-         Não é normal, mas não se envergonhe, já tem remédio, fique tranqüilo... já tem remédio...

quarta-feira, 18 de julho de 2012

O INIMIGO

O INIMIGO VAI VOLTAR!


 Esta frase grifada em vermelho na parede enegrecida da repartição às vezes instigava a imaginação de Júlio. Em meio ao bate-bate das máquinas de escrever, que não paravam nunca, Júlio às vezes raciocinava... “O Inimigo vai voltar...” O inimigo vai voltar? Mas... o inimigo já andou entre nós? Como assim vai voltar? Afinal, quem é o inimigo? Esses devaneios lhe causavam vergonha, pois sempre os interrompia quando percebia que o som sempre sério das máquinas havia parado, e seus colegas, sentados às suas mesas, o fitavam de maneira estranha.

 Olhos mortos.

 A repartição era escura, quase não tinha cor [seja lá o que isso – cor - quisesse dizer], Júlio não conhecia essas coisas, apenas batia relatórios em sua velha máquina... tac tac tac tac tac tac e então uma sensação de segurança lhe acalentava a alma, era um tac tac tac tac tac tac tac em consonância com os demais, era algo harmônico , todos juntos tac tac tac...

 O Inimigo vai voltar...

 “Como assim? Quem é ele? Quem é ele?” Seu olhar perdido no nada... “Quem é ele?”

 Pronto. Máquinas paradas. Mais uma vez o peso dos olhares sobre si.

 Olhos mortos.

 Desconforto total.Um colega se pôs em pé, perfilado feito um militar, e em seguida retirou-se da sala. Sem demora já estava de volta acompanhado do chefe; este botou a mão no ombro de Júlio e fez um sinal com a cabeça. Saíram. As máquinas retomaram seus ritmos monocórdios... tac tac tac tac tac tac...

 Já na sala do chefe, este o inquiriu. “Afinal? O que estava havendo com ele, Júlio, sempre funcionário tão bom? Não era admissível desviar os olhos das tarefas, ou seja, dos relatórios, e perder-se em pensamentos, com o olhar solto no nada, como assim? E as tarefas? E as tarefas? Que tomasse jeito então, afinal, isso não parecia bom exemplo para os demais.“Já pode ir”

 Tac tac tac tac tac tac...

 Mas aquela frase na parede não lhe saía da cabeça.

 Cabeça?

 Cabeça?

 Cabeça,

 cabeça, cabeça, cabeça tac tac tac tac... Por que um inimigo? Quem poderia ser inimigo daqueles inócuos relatórios? Daquelas pessoas cabisbaixas tão ciosas de seus afazeres. Afinal, às dezoito horas – sempre, sempre - tocava a sirene e todos rumavam ordeiros para suas casas, jantavam e deitavam suas cabeças em seus travesseiros... suas cabeças? cabeças? cabeças, cabeças, tac tac tac...

 Dezoito horas. Sirene.

 Naquele dia Júlio não foi para casa.
 Bebeu vinho
 perambulou
 pensou
 riu
riu mais
bebeu mais vinho
caminhou
 correu
 pulou
sonhou
 dormiu de ressaca...

 Oito da manhã. Sirene.

 Tac tac tac tac tac tac...

 Júlio sentiu a mão do chefe em seu ombro; levantou-se e acompanhado daquele homem taciturno e mal-encarado, desapareceu pela porta. Minutos depois a senhora da limpeza entrou na repartição com balde, esfregão, e indiferença; então esfregou, esfregou, até desaparecer os dizeres da parede. Ninguém desviou os olhos dos relatórios.

 Tac tac tac tac tac tac...

 Júlio nunca mais foi visto.