segunda-feira, 11 de junho de 2012
A ROUPA DO MORTO
...e eu aqui deitado imóvel parado... devidamente paramentado, com gente deste e daquele lado...vejo rostos desconsolados [e outros meio gozados...]
Cabeças que me olham do alto...A Vera tá usando salto? Tem gente que não conheci, tem outros que não vejo aqui, não sabem que morri.
Sinto-me um pouco humilhado, por todos assim olhado. E a roupa com a qual me vestiram? Tiveram nenhum cuidado! Até o sapato se duvidar tá furado! E lá fora? Ou muito me engano ou é gargalhada! É gente contando piada! Ou... [é só o que faltava] a sola do meu sapato... tá mesmo arruinada!
Agora me encara a Rosinha, putinha, alisa minha gravata, que me deu de presente em não me lembro que data; se a patroa descobre me mata! - Ops! Em tempo a errata!
E o Osório, coitado, deixou este paletó por lágrimas melado; quantas vezes no meu ombro chorou seus infortúnios, o desgraçado. Levo comigo seu DNA desconsolado - mas hoje não vi lágrima cair do teu olho, danado!
...e esta minha camisa, que usei na formatura da minha filha, quem diria, me acompanhará na escura e fria trilha... [Falar nisso, cadê a Marília?]
...e minhas cuecas, putz! Me puseram uma “samba-canção” talvez pra santificar o defunto, que quando morto vira santo... ahã, nessa não caio não. E esse de pé aqui ao lado, ri miudinho, o putinho, ainda vai me derrubar a porra do cafezinho! Entornar em minhas calças, presente da patroa que garantiu, ficaram boas pra eu usar no próximo verão. Calça boa, de algodão. Pra onde vou, amor, preciso de calça não! Mas vá lá... prêmio consolação.
Até minhas meias, que comprei em Paris, [ah os bons tempos...] parecem rir nos meus pés como quem diz: “me compraste por me achares grossa e quente, para aquecer os teus pés, seu mentiroso demente!Olha agora a ‘fria’ em puseste a gente! “
Até um lencinho de seda, mimo singelo de meu casamento, está aqui no meu bolso, murchando triste e lento... – Vai comigo meu filho, lamento... lamento...
Estranha essa gente, olha pra mim, pra minha roupa, e comentários não poupa: “Não tava bem o finado; olha só, o sapato furado” ou “Esse paletó tá danado!”. É, mas quando ainda vivia, e de dinheiro não carecia, tirei muita gente de fria! É... os vivos têm cada mania!
e...
Tem gente que entra e tem gente que sai. Tem gente que vem e tem gente que vai. Tem quem não se dê conta, que se distrai, e por curiosidade se trai; toca na mão do morto pra sentir a temperatura... acaricia, sente a textura...
Opa!
Agora gostei! Vejo aproximar-se pequena multidão. Finalmente! Choram, gemem, vejo até empurrão. Na certa reconheceram no morto o bom cidadão!
Que bom! Que bom! É pingo de lágrima na lapela, é beijo, beijinho, beijão!
Mas...
Pura ilusão...
é só o momento
de fechar o caixão...
[A todos peço perdão, por encerrar esse relato assim, de supetão!]
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
DOSADOR
Bebendo só
em um bar chalaça
há de se medir
o tom da cachaça
A primeira dose
abre a mente
assim, de mansinho,
num crescente
A segunda dose
já alegra a alma
que já pensa numa terceira
com alegria e calma
A terceira traz bate-papo
com a mesa do lado
‘valeu gente fina,
falou ta falado!’
A quarta é a dos abraços
do riso alto, da alegria
que venha mais uma!
Coisa boa a euforia!
A quinta é dos infernos!
Êta que tá boa!
Fala bastante
conversa à toa
A sexta já vem um pouco azeda
té parece discussão
todo mundo fala
ninguém tem razão
A sétima tem gosto de sangue
de tapa, safanão
de gente valente
cabe uma oitava, como não?
A oitava...
A oitava...
Tem a forma de fio de faca
que bêbado tem cu na estaca!
Turma do deixa disso...
‘qualé a tua babaca!’
‘Quer toma mais uma?
Procura outro bar!’
Avisa o bodegueiro
com o dedo no ar
Eu volto
e vou matar todo mundo!
que eu sou trabalhador
não sou vagabundo!
E caminha na rua
de pé trocado
e pensa vingança
‘foi dado o recado!’
Minha faca, minha faca!
Minha faca, minha faca!
Cai duro em um canto
o resto é ressaca...
Roberto Axe
em um bar chalaça
há de se medir
o tom da cachaça
A primeira dose
abre a mente
assim, de mansinho,
num crescente
A segunda dose
já alegra a alma
que já pensa numa terceira
com alegria e calma
A terceira traz bate-papo
com a mesa do lado
‘valeu gente fina,
falou ta falado!’
A quarta é a dos abraços
do riso alto, da alegria
que venha mais uma!
Coisa boa a euforia!
A quinta é dos infernos!
Êta que tá boa!
Fala bastante
conversa à toa
A sexta já vem um pouco azeda
té parece discussão
todo mundo fala
ninguém tem razão
A sétima tem gosto de sangue
de tapa, safanão
de gente valente
cabe uma oitava, como não?
A oitava...
A oitava...
Tem a forma de fio de faca
que bêbado tem cu na estaca!
Turma do deixa disso...
‘qualé a tua babaca!’
‘Quer toma mais uma?
Procura outro bar!’
Avisa o bodegueiro
com o dedo no ar
Eu volto
e vou matar todo mundo!
que eu sou trabalhador
não sou vagabundo!
E caminha na rua
de pé trocado
e pensa vingança
‘foi dado o recado!’
Minha faca, minha faca!
Minha faca, minha faca!
Cai duro em um canto
o resto é ressaca...
Roberto Axe
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
O QUASE MORTO E O QUASE VIVO
O homem quase-morto recebeu seu amigo quase-vivo.
O homem quase-morto estava quase morto.
Estava em uma cama de hospital, nas últimas.
O homem quase-vivo estava aflito:
– Aquela mulher acabou comigo! – disse com um pouco de raiva – Desgraçada! Se ela pensa que darei o braço a torcer está muito enganada! Caramba o que eu faço? Sou louco por ela! me ajude, diga alguma coisa! Você nunca me deu um conselho na vida! Um, que seja... que amigo você é, hein? Só me lembro daquela baboseira que me disse certa vez de que não deveríamos ser carregados no colo quando andamos em nossa própria estrada, sei lá, ou coisa parecida.... Você sempre foi meio enigmático...
O homem quase-morto sorriu.
- Bem, estou para iniciar um novo negócio, o que você acha? Sim, eu sei, são tempos difíceis coisa e tal... mas quem não arrisca... né? Sei lá... o que você acha? Diz alguma coisa, porra! Qualquer coisa! Nem que seja da minha camisa, paguei duzentos paus nela! Bonita? Diz aí! Bonita?
O homem quase-morto sorriu.
- Você está me irritando, meu! Esse silêncio está me irritando... Diga-me o que achou do meu bronzeado? – o homem quase-vivo abriu a alguns botões de sua camisa nova de duzentos paus deixando o peito à mostra – Veja, que bronzeado, hein? É que estive na praia no fim de semana, cara, que mulherada! Pensei em você... sim, eu penso em você, seu ingrato! Gostaria que estivesse comigo, ah... que mar! Azul, azul, você precisava ver. Sim, o lugar ideal para me divertir e esquecer aquela cadela! Você não acha? O que me diz?
O homem quase-morto sorriu, depois riu e depois tossiu.
O homem quase-vivo foi até a janela e olhando para fora comentou:
- Ah, que dia! A noite vai ser boa! Vou encher os cornos hoje à noite, tomar todas, eu mereço né compadre, é ou não é? Mereço ou não mereço? Claro que mereço, porra! Com tudo isso que ando passando por causa daquela vagabunda! Aquela vagabunda! Mas até que é gostosa, né? Hehehehe... eu sou foda, meu! Você sabe, não preciso repetir. Olha, enchi o saco! Você aí, não me diz nada, não me dá um bom conselho, daqueles que só os bons amigos dão... nem isso você faz! Sinto que estou é perdendo meu tempo aqui, fui!
O homem quase-vivo saiu do quarto e o homem quase-morto ficou por muito, muito tempo fitando a parede branca.
Os minutos foram passando, depois as horas...
O homem-quase-morto, quieto, imóvel, enfim morreu.
Mais vivo do que nunca...
O homem quase-morto estava quase morto.
Estava em uma cama de hospital, nas últimas.
O homem quase-vivo estava aflito:
– Aquela mulher acabou comigo! – disse com um pouco de raiva – Desgraçada! Se ela pensa que darei o braço a torcer está muito enganada! Caramba o que eu faço? Sou louco por ela! me ajude, diga alguma coisa! Você nunca me deu um conselho na vida! Um, que seja... que amigo você é, hein? Só me lembro daquela baboseira que me disse certa vez de que não deveríamos ser carregados no colo quando andamos em nossa própria estrada, sei lá, ou coisa parecida.... Você sempre foi meio enigmático...
O homem quase-morto sorriu.
- Bem, estou para iniciar um novo negócio, o que você acha? Sim, eu sei, são tempos difíceis coisa e tal... mas quem não arrisca... né? Sei lá... o que você acha? Diz alguma coisa, porra! Qualquer coisa! Nem que seja da minha camisa, paguei duzentos paus nela! Bonita? Diz aí! Bonita?
O homem quase-morto sorriu.
- Você está me irritando, meu! Esse silêncio está me irritando... Diga-me o que achou do meu bronzeado? – o homem quase-vivo abriu a alguns botões de sua camisa nova de duzentos paus deixando o peito à mostra – Veja, que bronzeado, hein? É que estive na praia no fim de semana, cara, que mulherada! Pensei em você... sim, eu penso em você, seu ingrato! Gostaria que estivesse comigo, ah... que mar! Azul, azul, você precisava ver. Sim, o lugar ideal para me divertir e esquecer aquela cadela! Você não acha? O que me diz?
O homem quase-morto sorriu, depois riu e depois tossiu.
O homem quase-vivo foi até a janela e olhando para fora comentou:
- Ah, que dia! A noite vai ser boa! Vou encher os cornos hoje à noite, tomar todas, eu mereço né compadre, é ou não é? Mereço ou não mereço? Claro que mereço, porra! Com tudo isso que ando passando por causa daquela vagabunda! Aquela vagabunda! Mas até que é gostosa, né? Hehehehe... eu sou foda, meu! Você sabe, não preciso repetir. Olha, enchi o saco! Você aí, não me diz nada, não me dá um bom conselho, daqueles que só os bons amigos dão... nem isso você faz! Sinto que estou é perdendo meu tempo aqui, fui!
O homem quase-vivo saiu do quarto e o homem quase-morto ficou por muito, muito tempo fitando a parede branca.
Os minutos foram passando, depois as horas...
O homem-quase-morto, quieto, imóvel, enfim morreu.
Mais vivo do que nunca...
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
NADA INTERESSA A ELES...
Nada interessa a eles...
Se não for manipulável
Se não for comprável
Se não for tributável
Se não for corruptível
Se não for arrecadável
Se não for usurpável
Se não for delineável
Se não der pra sugar
Se não render juros
Se não der lucro
Se não der voto
Nada interessa a eles...
Se não for alinhado
Se não for alienado
Se não for endividado
Se não for marcado
Se não for bem-mandado
Se não for gado
Nada interessa a eles...
Se não for lugar-comum
Se não for medíocre
Se não for baixo
Se não for capacho
Se não der pra manipular
Se não der pra tirar
Se não der pra enganar
Se não der pra ludibriar
Se não der pra abraçar
Se não der pra se roçar
Se não der pra morder
Se não se deixar doer
Se não se deixar roer
Se não se deixar morrer
Se não crer
Nada interessa a eles...
Se não for indecente
Se não for complacente
Se não for doente
Se não for meramente
Se não for condescendente
Se não for indolente
Se não for pequeno
Se for em frente
Se tiver em mente
Se tiver um pingo de dignidade
Se não tiver interesse na amizade
Se tiver uma sobra de hombridade
Se tiver, ainda, alguma honradez
Se não quiser trapacear
Se tiver firmeza
Se não se deixar corromper
Nada interessa a eles...
Se tiver aquilo... que eles não têm
Roberto Axe
Se não for manipulável
Se não for comprável
Se não for tributável
Se não for corruptível
Se não for arrecadável
Se não for usurpável
Se não for delineável
Se não der pra sugar
Se não render juros
Se não der lucro
Se não der voto
Nada interessa a eles...
Se não for alinhado
Se não for alienado
Se não for endividado
Se não for marcado
Se não for bem-mandado
Se não for gado
Nada interessa a eles...
Se não for lugar-comum
Se não for medíocre
Se não for baixo
Se não for capacho
Se não der pra manipular
Se não der pra tirar
Se não der pra enganar
Se não der pra ludibriar
Se não der pra abraçar
Se não der pra se roçar
Se não der pra morder
Se não se deixar doer
Se não se deixar roer
Se não se deixar morrer
Se não crer
Nada interessa a eles...
Se não for indecente
Se não for complacente
Se não for doente
Se não for meramente
Se não for condescendente
Se não for indolente
Se não for pequeno
Se for em frente
Se tiver em mente
Se tiver um pingo de dignidade
Se não tiver interesse na amizade
Se tiver uma sobra de hombridade
Se tiver, ainda, alguma honradez
Se não quiser trapacear
Se tiver firmeza
Se não se deixar corromper
Nada interessa a eles...
Se tiver aquilo... que eles não têm
Roberto Axe
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
O DIA EM QUE O MEU SUBCONSCIENTE OUVIU POUCAS E BOAS!
Percebi logo que era um sonho e me deixei levar de imediato pela beleza do local. Eu caminhava por uma rua ensolarada e movimentada em que prédios antigos ostentavam uma arquitetura de beleza antiga e sem igual; tudo era sereno no sonho, apesar do movimento da rua. Saint Germain des-Prés! Comemorei; sim, estou em Paris! Quem sabe na próxima esquina encontro o lendário Les Deux Magots? Ou mais, em se tratando de um sonho, quem sabe não encontro Henry Miller vagando durango e sonhador, e enchemos a cara em algum bar! Ora, quem sabe na próxima esquina não esteja uma rua encravada nos anos quarenta? ou trinta? Os existencialistas! Mme du Beauvoir, Sartre, Camus! O fantástico Artaud, mais louco do que nunca! Quem sabe Breton! Os surrealistas, os dadaístas! Ou ainda Hemingway bêbado, ao mirar o nada sentado à beira de uma calçada! Afinal, festejei, sonho é sonho não é mesmo? Prossegui caminhando lentamente, inebriado por esses pensamentos quando aos poucos fui percebendo que alguém me seguia cantando. Prestei atenção na música:
Voar voar, subir subir, ir por onde for
Descer até o Sol cair, ou mudar de cor
Anjos de cais, azas de ilusão
E um sonho audaz feito um balão...
Virei-me e dei de cara com o cantor Biafra! O cara me seguia cantando, e me olhava com doçura como se dedicasse sua cantiga só para mim! Continuei andando, tentando não dar bola para aquilo, mas o cantor não me largava....
Luar, luar eu sou assim brilho do farol
Além do mais amar até o fim simplesmente sol
Rock do bom ou quem sabe jazz
Som sobre som bem mais bem mais...
Pronto! Agora eu andava por Paris com Biafra cantando atrás de mim! ‘Belo sonho!’ Mas, para minha sorte encontrei uma cabine telefônica, entrei correndo e fechei a porta. Biafra parou também e ficou cantando do lado de fora, sem tirar seus olhos de mim. Peguei o telefone, indignado, e liguei sem demora para meu subconsciente. O cara atendeu do outro lado:
- Alô.
- Vem cá, meu! Que palhaçada é essa? – esbravejai.
- Tô entendendo não, meu irmão....
- Botar o Biafra cantando atrás de mim enquanto ando por Paris! De onde tirou essa idéia!
- Ah, sim, não me leve a mal... mas é que você achou graça daquele comercial do carro lembra? Que o ladrão não agüenta o Biafra no banco de trás e foge deixando o carro abandonado na rua. Achei que você iria gostar, pô! Que cara difícil de agradar esse!
- Você tá de gozação comigo, eu te conheço...
- Quem me conhece é o papai Freud, mais ninguém! Tá se achando, é? Olhe, não brinque comigo, você não me conhece... aliás, faz horas que você não lê Freud, e não preciso lhe dizer que adoro dormir escutando os textos de papai.
- Cara, não tenho tempo para conversa fiada, tire o Biafra do meu sonho, agora! – ordenei com raiva.
- Ei,ei,ei calma aí! Pensa que você é quem manda? Tá enganado, mano! Ou já esqueceu daquela broxada com a morena fantástica aquela? Pois é, você havia me irritado uns dias antes, então fui obrigado a mandar um ‘recadinho’ aí pra cima, hehehe....
- Olhe, olhe, - procurei me acalmar, pois realmente o danado tinha lá seus poderes – não estou lhe pedindo muito... Paris. OK. Gostei, mas porra! Biafra, irmão!
- Já lhe expliquei... o comercial aquele... achei que ia gostar...
- Mas não gostei! Certo?
- Olha, você está me deixando irritado, e se eu me irritar... sabe como é... transformo tudo isso aí num pesadelo horroroso, não mexa comigo!
- Ah, você quer me desafiar, é isso? Pois saiba que não tenho medo de você!
- Ah não? Sou seu subconsciente esqueceu? Não brinque comigo rapaz! Você não sabe do que sou capaz!
- Vai fazer o quê, imbecil? O que pode ser pior do que o Biafra me seguindo por Paris? Vá pro inferno! – desliguei o telefone irritado e saí da cabine, que para minha surpresa estava no palco do programa da Hebe! e a própria me aguardava! A apresentadora apertou minhas bochechas, para delírio do auditório lotado!
- Coisa mais linda de se ‘viver’! – disse a Hebe – diz aí, meu auditório, ele não fica mais bonito assim brabinho? – o auditório então entrou em delírio, num frenesi dos diabos! – Brabinho! Brabinho! – repetiam batendo palmas. Retornei para a cabine furioso, fechei a porta e liguei pro filho da puta! Mas a partir daqui não posso prosseguir meu relato, pois as palavras que se seguiram são impublicáveis.
Voar voar, subir subir, ir por onde for
Descer até o Sol cair, ou mudar de cor
Anjos de cais, azas de ilusão
E um sonho audaz feito um balão...
Virei-me e dei de cara com o cantor Biafra! O cara me seguia cantando, e me olhava com doçura como se dedicasse sua cantiga só para mim! Continuei andando, tentando não dar bola para aquilo, mas o cantor não me largava....
Luar, luar eu sou assim brilho do farol
Além do mais amar até o fim simplesmente sol
Rock do bom ou quem sabe jazz
Som sobre som bem mais bem mais...
Pronto! Agora eu andava por Paris com Biafra cantando atrás de mim! ‘Belo sonho!’ Mas, para minha sorte encontrei uma cabine telefônica, entrei correndo e fechei a porta. Biafra parou também e ficou cantando do lado de fora, sem tirar seus olhos de mim. Peguei o telefone, indignado, e liguei sem demora para meu subconsciente. O cara atendeu do outro lado:
- Alô.
- Vem cá, meu! Que palhaçada é essa? – esbravejai.
- Tô entendendo não, meu irmão....
- Botar o Biafra cantando atrás de mim enquanto ando por Paris! De onde tirou essa idéia!
- Ah, sim, não me leve a mal... mas é que você achou graça daquele comercial do carro lembra? Que o ladrão não agüenta o Biafra no banco de trás e foge deixando o carro abandonado na rua. Achei que você iria gostar, pô! Que cara difícil de agradar esse!
- Você tá de gozação comigo, eu te conheço...
- Quem me conhece é o papai Freud, mais ninguém! Tá se achando, é? Olhe, não brinque comigo, você não me conhece... aliás, faz horas que você não lê Freud, e não preciso lhe dizer que adoro dormir escutando os textos de papai.
- Cara, não tenho tempo para conversa fiada, tire o Biafra do meu sonho, agora! – ordenei com raiva.
- Ei,ei,ei calma aí! Pensa que você é quem manda? Tá enganado, mano! Ou já esqueceu daquela broxada com a morena fantástica aquela? Pois é, você havia me irritado uns dias antes, então fui obrigado a mandar um ‘recadinho’ aí pra cima, hehehe....
- Olhe, olhe, - procurei me acalmar, pois realmente o danado tinha lá seus poderes – não estou lhe pedindo muito... Paris. OK. Gostei, mas porra! Biafra, irmão!
- Já lhe expliquei... o comercial aquele... achei que ia gostar...
- Mas não gostei! Certo?
- Olha, você está me deixando irritado, e se eu me irritar... sabe como é... transformo tudo isso aí num pesadelo horroroso, não mexa comigo!
- Ah, você quer me desafiar, é isso? Pois saiba que não tenho medo de você!
- Ah não? Sou seu subconsciente esqueceu? Não brinque comigo rapaz! Você não sabe do que sou capaz!
- Vai fazer o quê, imbecil? O que pode ser pior do que o Biafra me seguindo por Paris? Vá pro inferno! – desliguei o telefone irritado e saí da cabine, que para minha surpresa estava no palco do programa da Hebe! e a própria me aguardava! A apresentadora apertou minhas bochechas, para delírio do auditório lotado!
- Coisa mais linda de se ‘viver’! – disse a Hebe – diz aí, meu auditório, ele não fica mais bonito assim brabinho? – o auditório então entrou em delírio, num frenesi dos diabos! – Brabinho! Brabinho! – repetiam batendo palmas. Retornei para a cabine furioso, fechei a porta e liguei pro filho da puta! Mas a partir daqui não posso prosseguir meu relato, pois as palavras que se seguiram são impublicáveis.
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
A SENTENÇA
De volta ao lar, finalmente! Mas... que lar? Poderia chamar a casa da filha de ‘lar’? Podia sim, concluiu. Afinal, quem comprara a casa fora ele, em seus bons tempos, e aquela imensa biblioteca dentro da qual agora jazia, quieto, em sua cadeira de rodas, fora toda montada às suas expensas financeiras e intelectuais. Velho e combalido, olhava com carinho paternal para aquelas estantes abarrotadas de livros e poeira. Quanta saudade! Havia meses que sonhava com aquele encontro; sua biblioteca, sua paixão, sua vida! Enfim, ali, sentia-se em casa, ali, afinal, era sua casa! E não aquele asilo horrível em que passara os últimos meses. Achava que não merecia isso. Achava que sua filha e seu genro, aquele aproveitador, não teriam coragem de livrar-se dele feito um traste velho que já não servisse para nada; mas percebera que, agora trancado por dentro, indefeso, afásico e semimorto, tornara-se uma presa fácil para decisões alheias... Quem diria! Logo sua filha, aquela menina que cansava de encontrar, criança e ranhenta em suas recorrentes memórias; memórias estas que eram revisitadas a todo instante, pois não havia mais nada a fazer... nada, só lembrar, lembrar e lembrar. Tentava amenizar suas recordações tentando recompor coisas novas, como aquele garotinho que agora brincava ali aos seus pés, Paulinho, o neto. Paulinho de tanto em tanto estacionava seu carrinho ao pé de uma cadeira e olhava para o avô. Este então esboçava um sorriso na tentativa de capturar a atenção do menino, mas Paulinho logo retomava seu brinquedo e seguia alheio ao velho. O idoso então desviou seu olhar para a janela aberta e imaginou quando a Morte entraria, suave, vestida de cortinas vermelhas, as mesmas que agora esvoaçavam, para finalmente brindá-lo com seu beijo frio e balsâmico, pondo fim a tantas lembranças recorrentes que agora lhe doíam. Sua companheira de jornada havia falecido há anos, ao que ele atribuía o derrame que sofrera, pondo-o prostrado e inútil em uma maldita cadeira de rodas. Amava sua mulher profundamente, e ante a sua partida repentina, realmente, não havia nada que o consolasse. – Mas algo saiu errado – pensava ele – pois eu deveria ter partido por inteiro e não pela metade! Pois o que de mim sobrou na Terra, agora sei, não é bem-vindo, infelizmente, infelizmente...
Era um velho juiz. Sua profissão também não lhe saía da cabeça; teria sido justo em suas sentenças? Tinha agora todo o tempo do mundo para ruminar pensamentos, investigar, esmiuçar... Teria sido traído em suas convicções aplicando sentenças injustas? Quanto ódio teria suscitado em pessoas que lhe veriam em sua atual situação de miséria existencial com a alma em júbilo? Pessoas que exclamariam exaltadas que o velho juiz teve, finalmente, o que merecia!
Não, não, não... cuidara com especial zelo para não cometer injustiças. E aqueles livros à sua volta em muito lhe ajudaram na sua imparcialidade. Era um manancial de sabedoria jurídica, jurisprudências, etc. lia e relia sobre Direito Romano, enfim, se por ventura errara em alguma decisão, com certeza não teria sido por desleixo em seus estudos. Um livro em especial recebia agora seu olhar combalido: De Legibus de Marcus Tullius Cícero. – Cícero... Cícero... – pensava com seus botões – quanta eloqüência... as Catilinárias! as Catilinárias! Quo usque tandem abutere, Catilina, patientia nostra?- finalmente o velho esboçou um sorriso, sem tirar os olhos do livro na estante. De Legibus... Sim, por que não? Queria agora aquele livro em seu colo. Sentia-se como que renascendo; uma alegria estranha se apossou de seus instintos há muito mortificados – Cícero! Cícero! – queria ler Cícero, pronto, estava decidido! Iria mostrar a todos que não estava morto, não, o velho juiz ressurgia das cinzas tal qual uma Fênix! Mas agora uma outra tarefa se fazia necessária, falar. Há algum tempo não conseguia dizer palavra, como poderia pedir o livro? Ora, estava sob o efeito de uma verve tão intensa que, alegre, reuniu finalmente as forças que transitavam por seu espírito naquele momento e ergueu o braço com dificuldade; apontou seu dedo trêmulo para frente e, vitorioso, balbuciou:
- Cícero...
Paulinho, surpreso, parou sua brincadeira com o carrinho e encarou espantado o avô, que sorria emocionado.
- Mamãe! Mamãe! O vovô me chamou de Cícero! – gritou.
Sem demora a mulher entrou na biblioteca e, carinhosa, passou a mão na cabeça do velho.
- Coitado – disse a filha – está cada vez pior...
Na manhã seguinte o idoso estava novamente no asilo.
sexta-feira, 29 de julho de 2011
O EDITOR BONZINHO
- Oh, sim, meu caro escritor, adorei seu livro! Puxa, de onde tirou essa estória? Que imaginação, hein? Sabe, você tem talento. Acredite, eu conheço um gênio de longe, sim, meu garoto, de longe! E você é bom, aliás, diria... muito bom! Quantos anos você tem? É quase um menino, acredito.... é a primeira vez que submete manuscritos?
- Sim. – respondeu o rapaz, sentado do outro lado da imensa mesa; mal podia disfarçar a alegria provocada pelas palavras do editor. Um riso meio tolo e impertinente lhe invadia o semblante amiúde, teimando em deixar transparecer uma felicidade pura e ruidosa. Era seu primeiro trabalho, e havia colocado ‘sua alma’ naquele livro.
- Veja, querido – prosseguiu o editor – não é da minha índole ficar massageando ego de escritor, que já é bem dilatado, hehe... mas no seu caso... bem, estou impressionado. Seu livro é profundo, bem articulado, inteligente, instigante... bem, resumindo, não vou publicá-lo!
O rapaz sentiu um soco no estômago! Como assim? Depois de tudo que foi dito? Seu mundo desmoronou em um segundo – malditas palavras aquelas do editor: ‘não vou publicá-lo’ – não encontrou palavras para rebater a impertinência. Manteve, então, sua decepção em silêncio, em venenoso silêncio...
- É que... entenda, meu jovem – continuou o carrasco – isso não vende! Pois é, fazer o quê? É o mercado, compreende? Sei que você deve estar me odiando, mas diga-me, o que posso fazer? Sou um empresário, sobrevivo das vendas de minhas publicações e... digo isto com um aperto no coração: seu livro é muito bom, logo, não vende... Ninguém quer ter de ficar quebrando a cabeça para decifrar códigos existenciais, querem sim é decifrar códigos Da Vinci, percebe? Olhe, nem tudo está perdido, quero lhe fazer um convite, quero convidá-lo a escrever para mim! Quero o seu talento, meu rapaz! Tenho cá comigo uma idéia que você poderá desenvolver com sua impressionante criatividade; é uma idéia para um livro que vende, percebe? A estória é a seguinte: uma vampira se apaixona por um fantasma, ou um morto-vivo, você escolhe, bem, o problema é que a vampira quer sugar o sangue do amado para torná-lo imortal como ela, porém, isso é impossível uma vez que ele é morto!Não tem sangue! Caramba! Isso vende! Entendeu?
O rapaz baixou a cabeça, estava morto por dentro.
- Não fique assim meu geniozinho.... vamos ganhar dinheiro juntos! Pare com idealismos bobos, mercado é mercado, filhote, fazer o quê! Isso que você está sentindo passa logo, é coisa de iniciante, é coisa de sangue novo, é ingenuidade. O negócio é grana, irmão. Grana! Entendeu? Olhe, vou lhe dar um pequeno adiantamento – ato contínuo, o editor puxou seu talão de cheques e rapidamente escreveu uma quantia, assinou e entregou o papel ao escritor; este pegou o cheque, examinou e sentiu o azedume de seu espírito esvaecer um pouco - Um profissional, hein? – prosseguiu o, agora, patrão - Como se sente? É bom, né? Pois é, isso é ser um autor. De que adianta todo seu romantismo se você não tiver grana? É grana que conta, irmão. Taí, trabalhe para mim, conceda-me seu talento e ganharemos muito dinheiro, você agora é um autor! – em seguida levantou-se de sua confortável cadeira, no que foi seguido pelo escritor, e dirigiu-se à porta do escritório. Cumprimentou mais uma vez o novato e abriu a porta – Uma vampira e um fantasma. Ou morto-vivo, não esqueça.... volte quando tiver alguma coisa. – deu um tapinha nas costas do moço, que saiu silencioso e em seguida escutou a porta bater atrás de si. Caminhou pelo comprido corredor do prédio em direção à rua, estava mais tranqüilo, quem sabe não era apenas um romântico irrecuperável? Ora, estava na hora de encarar a Realidade... ‘é o mercado’ disse o editor. Sim, estava certo ele... Começou então a sentir uma sensação de bem-estar, pegou o cheque no bolso e conferiu mais uma vez, sorriu e prosseguiu caminhando rumo a porta da saída – Vampiros? Zumbis? Ora, por que não? - apaziguado, resignado, um pouco feliz até, saiu do prédio e misturou-se aos transeuntes na calçada... nem reparou nas duas profundas marcas de dentes caninos bem finos que ostentava, alheio, em seu pescoço...
- Sim. – respondeu o rapaz, sentado do outro lado da imensa mesa; mal podia disfarçar a alegria provocada pelas palavras do editor. Um riso meio tolo e impertinente lhe invadia o semblante amiúde, teimando em deixar transparecer uma felicidade pura e ruidosa. Era seu primeiro trabalho, e havia colocado ‘sua alma’ naquele livro.
- Veja, querido – prosseguiu o editor – não é da minha índole ficar massageando ego de escritor, que já é bem dilatado, hehe... mas no seu caso... bem, estou impressionado. Seu livro é profundo, bem articulado, inteligente, instigante... bem, resumindo, não vou publicá-lo!
O rapaz sentiu um soco no estômago! Como assim? Depois de tudo que foi dito? Seu mundo desmoronou em um segundo – malditas palavras aquelas do editor: ‘não vou publicá-lo’ – não encontrou palavras para rebater a impertinência. Manteve, então, sua decepção em silêncio, em venenoso silêncio...
- É que... entenda, meu jovem – continuou o carrasco – isso não vende! Pois é, fazer o quê? É o mercado, compreende? Sei que você deve estar me odiando, mas diga-me, o que posso fazer? Sou um empresário, sobrevivo das vendas de minhas publicações e... digo isto com um aperto no coração: seu livro é muito bom, logo, não vende... Ninguém quer ter de ficar quebrando a cabeça para decifrar códigos existenciais, querem sim é decifrar códigos Da Vinci, percebe? Olhe, nem tudo está perdido, quero lhe fazer um convite, quero convidá-lo a escrever para mim! Quero o seu talento, meu rapaz! Tenho cá comigo uma idéia que você poderá desenvolver com sua impressionante criatividade; é uma idéia para um livro que vende, percebe? A estória é a seguinte: uma vampira se apaixona por um fantasma, ou um morto-vivo, você escolhe, bem, o problema é que a vampira quer sugar o sangue do amado para torná-lo imortal como ela, porém, isso é impossível uma vez que ele é morto!Não tem sangue! Caramba! Isso vende! Entendeu?
O rapaz baixou a cabeça, estava morto por dentro.
- Não fique assim meu geniozinho.... vamos ganhar dinheiro juntos! Pare com idealismos bobos, mercado é mercado, filhote, fazer o quê! Isso que você está sentindo passa logo, é coisa de iniciante, é coisa de sangue novo, é ingenuidade. O negócio é grana, irmão. Grana! Entendeu? Olhe, vou lhe dar um pequeno adiantamento – ato contínuo, o editor puxou seu talão de cheques e rapidamente escreveu uma quantia, assinou e entregou o papel ao escritor; este pegou o cheque, examinou e sentiu o azedume de seu espírito esvaecer um pouco - Um profissional, hein? – prosseguiu o, agora, patrão - Como se sente? É bom, né? Pois é, isso é ser um autor. De que adianta todo seu romantismo se você não tiver grana? É grana que conta, irmão. Taí, trabalhe para mim, conceda-me seu talento e ganharemos muito dinheiro, você agora é um autor! – em seguida levantou-se de sua confortável cadeira, no que foi seguido pelo escritor, e dirigiu-se à porta do escritório. Cumprimentou mais uma vez o novato e abriu a porta – Uma vampira e um fantasma. Ou morto-vivo, não esqueça.... volte quando tiver alguma coisa. – deu um tapinha nas costas do moço, que saiu silencioso e em seguida escutou a porta bater atrás de si. Caminhou pelo comprido corredor do prédio em direção à rua, estava mais tranqüilo, quem sabe não era apenas um romântico irrecuperável? Ora, estava na hora de encarar a Realidade... ‘é o mercado’ disse o editor. Sim, estava certo ele... Começou então a sentir uma sensação de bem-estar, pegou o cheque no bolso e conferiu mais uma vez, sorriu e prosseguiu caminhando rumo a porta da saída – Vampiros? Zumbis? Ora, por que não? - apaziguado, resignado, um pouco feliz até, saiu do prédio e misturou-se aos transeuntes na calçada... nem reparou nas duas profundas marcas de dentes caninos bem finos que ostentava, alheio, em seu pescoço...
domingo, 5 de junho de 2011
A RAINHA DA RUA!
Cinderela, Cinderela, rainha da rua! Rainha Cadela!
Pobre puta Cinderela. Condenada a vagar pelo vilarejo, agora velha e enrugada vestida apenas por andrajos sujos, e mal-tratada. Louca, não ligava à mínima para isso. O que irritava Cinderela era aqueles meninos na sua cola! Eram muitos garotos a lhe seguir pelas ruelas, a não lhe deixar em paz. Sempre zombavam, cuspiam, jogavam alguma coisa... era humilhante para a puta velha este tratamento que julgava não merecer. Agora era ‘a louca’ – Pois sim, louca, então, - pensava ela – louca é? Mas quando jovem me achavam ‘bem normal’, aliás, mais normal que as ‘mulheres certinhas’, quando vinham comprar meus favores e realizar fantasias que só julgam possível com putas. Aí eu prestava!
Pobre Cinderela.
O apelido ‘Cinderela’ era justamente oriundo da formosura da prostituta, em seus anos vicejantes. Que ironia! Agora era só uma velha louca esquecida por tudo e por todos, menos pelo Tempo, este carrasco inexorável, e pelos garotos maldosos, claro. Nos seus tempos, tinha cabelos louros e finos que esvoaçavam feito trigo no campo, e suas formas generosas atraiam a simpatia e prontidão de todos, desde o figurão até o pobretão, que muitas vezes ela atendia por pura compaixão. Gente que chegava ao cabaré se esgueirando pelas ruas, afinal, tinham reputações a zelar. Eram ‘homens de bem’. Tudo isso ela compreendia. Facilitava as coisas, ajudava, e até oferecia o ombro para que marmanjos desmamados chorassem suas desventuras burguesas e desinteressantes. Tinha uma santa paciência, a puta Cinderela.
Cinderela, Cinderela, rainha da rua! Rainha cadela!
Agora isso... recebia como prêmio, como uma espécie de aposentadoria desabonadora, aquele coro em seus ouvidos. Condenada a vagar pelas ruazinhas de pedra com aqueles garotos horríveis às suas costas feito o rabo de um crocodilo. Como se já não bastasse ter de viver com ajutórios e esmolas. Revirava lixo atrás de restos de comida e às vezes parava e pensava que já fora linda, desejada, e então aquecia um pouco seu coração ferido com essas migalhas de lembranças... seus pensamentos sempre embalados pelo fundo musical do deboche...
Cinderela, Cinderela, rainha da rua! Rainha cadela!
Seus cabelos brancos, agora grudentos. Seus restos de dentes podres. Suas roupas rasgadas. Seu futuro... que agora tinha o nome de Morte. Seu corpo agora cansado e velho, que proporcionou, há muito, muito tempo, as delícias lascivas daqueles homens tão respeitados. Pois, agora todos lhes viraram as costas. Quem sabe não seria ela um cisco no olho do respeitado vilarejo... um cisco a ser varrido permanentemente pra lá e pra cá, até chagar o dia fatal em que seu corpo – há muito imprestável -fosse encontrado entre algumas latas de lixo - Ufa! – todos respirariam aliviados – Já foi tarde a puta louca! Puta Cinderela! – Mas o problema maior para a velha era realmente aqueles garotos e aquela estrofe repetida e repetida infinitamente. Era muita maldade com a louca! Louca, louca! Ma aí a velha teve um estalo! - Louca! Louca! Este é o problema! E se eu ficar ‘normal’ como eles! E se eu agir, como os normais, só uma vez? E se eu agir como os respeitáveis, só uma vez? Não falaria, finalmente, a sua linguagem? Não me faria entender? Sim, porque não? Se eles são normais só entenderão se eu falar como eles... acho que poderei livrar-me desses garotos!
Cinderela, Cinderela, rainha da rua! Rainha cadela!
A puta velha então parou e ficou em silêncio. Os garotos pararam também, um pegou uma pedra. A mulher sorriu com seus cacos de dentes e perguntou a um deles se era neto do doutor Angenor. – Sim – respondeu o menino surpreso. – Pois então pergunte à sua avó se ele ainda tem aquele cancro horrível no saco! – em seguida a mulher virou-se para outro – E você, menino. Não é neto do ex-delegado Valdir? – o garoto assentiu com a cabeça, meio sem jeito – Então pergunte para sua avó se ele continua gostando do ‘dedinho’ – e assim foi... com um por um. Até todos saírem, intrigados, a procurarem suas avós. A partir daquele dia, Cinderela pode ser louca à vontade, sem o coro desabonador atrás de si. Deixaram-na definitivamente em paz. Revirando lixo. Louca! Louca! Cinderela... a Rainha Cadela...
Pobre puta Cinderela. Condenada a vagar pelo vilarejo, agora velha e enrugada vestida apenas por andrajos sujos, e mal-tratada. Louca, não ligava à mínima para isso. O que irritava Cinderela era aqueles meninos na sua cola! Eram muitos garotos a lhe seguir pelas ruelas, a não lhe deixar em paz. Sempre zombavam, cuspiam, jogavam alguma coisa... era humilhante para a puta velha este tratamento que julgava não merecer. Agora era ‘a louca’ – Pois sim, louca, então, - pensava ela – louca é? Mas quando jovem me achavam ‘bem normal’, aliás, mais normal que as ‘mulheres certinhas’, quando vinham comprar meus favores e realizar fantasias que só julgam possível com putas. Aí eu prestava!
Pobre Cinderela.
O apelido ‘Cinderela’ era justamente oriundo da formosura da prostituta, em seus anos vicejantes. Que ironia! Agora era só uma velha louca esquecida por tudo e por todos, menos pelo Tempo, este carrasco inexorável, e pelos garotos maldosos, claro. Nos seus tempos, tinha cabelos louros e finos que esvoaçavam feito trigo no campo, e suas formas generosas atraiam a simpatia e prontidão de todos, desde o figurão até o pobretão, que muitas vezes ela atendia por pura compaixão. Gente que chegava ao cabaré se esgueirando pelas ruas, afinal, tinham reputações a zelar. Eram ‘homens de bem’. Tudo isso ela compreendia. Facilitava as coisas, ajudava, e até oferecia o ombro para que marmanjos desmamados chorassem suas desventuras burguesas e desinteressantes. Tinha uma santa paciência, a puta Cinderela.
Cinderela, Cinderela, rainha da rua! Rainha cadela!
Agora isso... recebia como prêmio, como uma espécie de aposentadoria desabonadora, aquele coro em seus ouvidos. Condenada a vagar pelas ruazinhas de pedra com aqueles garotos horríveis às suas costas feito o rabo de um crocodilo. Como se já não bastasse ter de viver com ajutórios e esmolas. Revirava lixo atrás de restos de comida e às vezes parava e pensava que já fora linda, desejada, e então aquecia um pouco seu coração ferido com essas migalhas de lembranças... seus pensamentos sempre embalados pelo fundo musical do deboche...
Cinderela, Cinderela, rainha da rua! Rainha cadela!
Seus cabelos brancos, agora grudentos. Seus restos de dentes podres. Suas roupas rasgadas. Seu futuro... que agora tinha o nome de Morte. Seu corpo agora cansado e velho, que proporcionou, há muito, muito tempo, as delícias lascivas daqueles homens tão respeitados. Pois, agora todos lhes viraram as costas. Quem sabe não seria ela um cisco no olho do respeitado vilarejo... um cisco a ser varrido permanentemente pra lá e pra cá, até chagar o dia fatal em que seu corpo – há muito imprestável -fosse encontrado entre algumas latas de lixo - Ufa! – todos respirariam aliviados – Já foi tarde a puta louca! Puta Cinderela! – Mas o problema maior para a velha era realmente aqueles garotos e aquela estrofe repetida e repetida infinitamente. Era muita maldade com a louca! Louca, louca! Ma aí a velha teve um estalo! - Louca! Louca! Este é o problema! E se eu ficar ‘normal’ como eles! E se eu agir, como os normais, só uma vez? E se eu agir como os respeitáveis, só uma vez? Não falaria, finalmente, a sua linguagem? Não me faria entender? Sim, porque não? Se eles são normais só entenderão se eu falar como eles... acho que poderei livrar-me desses garotos!
Cinderela, Cinderela, rainha da rua! Rainha cadela!
A puta velha então parou e ficou em silêncio. Os garotos pararam também, um pegou uma pedra. A mulher sorriu com seus cacos de dentes e perguntou a um deles se era neto do doutor Angenor. – Sim – respondeu o menino surpreso. – Pois então pergunte à sua avó se ele ainda tem aquele cancro horrível no saco! – em seguida a mulher virou-se para outro – E você, menino. Não é neto do ex-delegado Valdir? – o garoto assentiu com a cabeça, meio sem jeito – Então pergunte para sua avó se ele continua gostando do ‘dedinho’ – e assim foi... com um por um. Até todos saírem, intrigados, a procurarem suas avós. A partir daquele dia, Cinderela pode ser louca à vontade, sem o coro desabonador atrás de si. Deixaram-na definitivamente em paz. Revirando lixo. Louca! Louca! Cinderela... a Rainha Cadela...
sábado, 4 de junho de 2011
O PORTADOR
E olhe que escolhi esta cabana por ficar bem longe!
De madeira crua, rústica, acanhada... só uma porta... e a solidão da montanha...
Foi assim que eu quis. Ficar longe de tudo, de todos, só mesmo a imensa floresta à minha volta. Faço passeios pela mata à hora que me dá na telha, aliás, faço tudo que me der na telha, aqui, isolado em minha solidão. Na cabana não há luz artificial... não, não, luz aqui só a do fogo de minha pequena lareira. Fogo que faz dançar imagens negras e estranhas nas paredes de pau. Quando noite, lá fora a escuridão é total e os ruídos são muitos, oriundos de meus amigos animais silvestres, que livres, fazem a algazarra de sempre para saudar o manto negro e misterioso que se estende, calmo, fazendo brotar estrelas no céu.
Não existe acesso à minha casa, não quis nenhuma picada, estrada, nada. Só o mato virgem em volta, nada mais. Quando preciso comprar minhas coisas, saio por entre as árvores e desço a montanha até o vilarejo. Quando volto, certifico-me de que não estou sendo seguido, pois não quero intrusos em meu pequeno mundo. Pois é... Eu voltava de uma dessas incursões ao pé do morro quando, surpreso, vi que a porta do barraco estava aberta. Já era noite e as estrelas no céu claro sorriam suas luzes em direção à minha casa. Sim, dava para ver bem, a porta estava aberta! Dentro, escuridão total. De minha parte nunca precisei de lanterna ou algo parecido, pois conheço a anatomia de meu chão como conheço a palma de minha mão.
Entrei.
Livrei-me das compras colocando-as em umas prateleiras em um canto e nessa pantomima no escuro, já aproveitei e peguei minha afiada adaga. Aos poucos comecei a escutar uma respiração pesada e descompassada. Sem dúvidas o invasor estava na casa, e mais, conseguia percebê-lo sentado em minha poltrona – que impertinência! – agora eu estava com raiva, uma raiva mortal, dessas que acomete a gente quando somos invadidos por imbecis em nossa privacidade. A cara de pau do intruso fez borbulhar meu sangue, normalmente tão calmo. Resolvi então que se ele era calmo e frio, eu deveria lhe dar o troco. Comecei a acender a lareira como se não o tivesse percebido, embora lhe desse às costas, temerariamente. Quando o fogo estabilizou voltei-me calmamente para encará-lo. Mirabolava coisas em minha cabeça, truques e mais truques, para não ficar, definitivamente, refém do medo, pois isto estragaria tudo.
Encarei o Homem.
Era algo grotesco. Vestia andrajos negros e escondia suas feições sob um imenso capuz, com exceção – uma exceção sinistra – de um olho... um olho... um olho vermelho e arregalado, que conseguiu gelar meus nervos de imediato. Nunca mais esqueci aquele olho. O sujeito então levantou calmamente uma de suas mãos e me apontou o dedo para em seguida pronunciar o meu nome. Era uma voz terrosa que saía daquele capuz.
- Sim sou eu – respondi com uma voz meio sumida, e emendei em seguida – E você, afinal, quem é?
- Meu nome é Portador... meu nome completo é Portador de Teus Medos. Demorei a encontrá-lo, mas finalmente estou aqui.
- Mas não por muito tempo. Gostaria que se fosse! Agora! – esbravejei.
O homem levantou-se calmamente e partiu silencioso. Tranquei a porta. Mas aquele olho vermelho ficou encravado em minha mente.
Algum tempo se passou e uma noite ao retornar à casa depois de um passeio pelo mato, vi a porta aberta e a lareira acesa. Quando entrei ele estava lá, o desgraçado do Portador! O filho da puta aquecia-se junto ao fogo. Quando recebi o olhar injetado daquele olho horrendo, tremi. Mas agora já era abuso, como assim? Aquecendo-se junto à minha lareira? O monstrengo impertinente julgava mesmo que poderia vir à qualquer hora e instalar-se tranqüilamente nas minhas coisas! Era só o que faltava!
- Vá embora agora! - ordenei com raiva – e lhe garanto, se voltar vai se dar mal! Minha paciência acabou!
O Portador, resignado, retirou-se. Tinha o andar lento e andava encurvado, além de não cheirar bem. Era uma figura nojenta e assustadora.
Depois da última visita, funesta, do Portador, cheguei a pensar em cercar a casa, mas justamente havia escolhido aquele local para me livrar das cercas! Não, não... haveria de encontrar outra solução, pois uma coisa era certa, o desgraçado sabia o caminho para minha cabana. Eu tentava também não ficar com a imagem daquele olho em minha lembrança, aquele olho arrepiante e escroto! Se cercasse a casa ou ficasse com a imagem daquele olho perturbando minha mente, saberia que o asqueroso teria vencido. Bem, se não voltasse já seria uma grande coisa, mas tinha o forte pressentimento de que voltaria... e voltou!
A porta aberta, a lareira acesa e... o nojento dormindo em minha cama! Dessa vez não agüentei! Acometido por uma raiva visceral, peguei minha adaga e me acheguei a ele.
- Hei, acorde!
O imenso olho então brotou da escuridão do capuz, sonolento e vermelho. Saltei sobre o invasor com minha faca e a enfiei com ódio naquele olho! Diversas vezes! O monstro gritava, esperneava, mas em vão. Só parei quando me certifiquei de que estava cego! Depois disso peguei aquela praga pelo braço e desci a montanha, pouco me lixando para suas gritarias e faniquitos. Deixei o Portador, que agora era portador de uma séria deficiência física, bem longe de minha montanha. Que vagasse a esmo e me esquecesse!
Finalmente à paz voltou ao meu pequeno reino. O único inconveniente é aquela mancha de sangue do lado de minha cama. Não houve jeito de removê-la... tentei de tudo, mas não deu. Logo ao lado da cama, palco do crime, como a me lembrar que aquele homem, mesmo sem o terrível olho, ainda existe e me procura. Nesses momentos olho para minha adaga, esta sim, de lâmina brilhante e limpa, e fico tranqüilo. Não me arrependo de nada. Faria de novo e de novo, faço qualquer coisa para a casa continuar assim, sem cerca em volta e freqüentada, à noite, apenas pelos sorrisos das estrelas...
De madeira crua, rústica, acanhada... só uma porta... e a solidão da montanha...
Foi assim que eu quis. Ficar longe de tudo, de todos, só mesmo a imensa floresta à minha volta. Faço passeios pela mata à hora que me dá na telha, aliás, faço tudo que me der na telha, aqui, isolado em minha solidão. Na cabana não há luz artificial... não, não, luz aqui só a do fogo de minha pequena lareira. Fogo que faz dançar imagens negras e estranhas nas paredes de pau. Quando noite, lá fora a escuridão é total e os ruídos são muitos, oriundos de meus amigos animais silvestres, que livres, fazem a algazarra de sempre para saudar o manto negro e misterioso que se estende, calmo, fazendo brotar estrelas no céu.
Não existe acesso à minha casa, não quis nenhuma picada, estrada, nada. Só o mato virgem em volta, nada mais. Quando preciso comprar minhas coisas, saio por entre as árvores e desço a montanha até o vilarejo. Quando volto, certifico-me de que não estou sendo seguido, pois não quero intrusos em meu pequeno mundo. Pois é... Eu voltava de uma dessas incursões ao pé do morro quando, surpreso, vi que a porta do barraco estava aberta. Já era noite e as estrelas no céu claro sorriam suas luzes em direção à minha casa. Sim, dava para ver bem, a porta estava aberta! Dentro, escuridão total. De minha parte nunca precisei de lanterna ou algo parecido, pois conheço a anatomia de meu chão como conheço a palma de minha mão.
Entrei.
Livrei-me das compras colocando-as em umas prateleiras em um canto e nessa pantomima no escuro, já aproveitei e peguei minha afiada adaga. Aos poucos comecei a escutar uma respiração pesada e descompassada. Sem dúvidas o invasor estava na casa, e mais, conseguia percebê-lo sentado em minha poltrona – que impertinência! – agora eu estava com raiva, uma raiva mortal, dessas que acomete a gente quando somos invadidos por imbecis em nossa privacidade. A cara de pau do intruso fez borbulhar meu sangue, normalmente tão calmo. Resolvi então que se ele era calmo e frio, eu deveria lhe dar o troco. Comecei a acender a lareira como se não o tivesse percebido, embora lhe desse às costas, temerariamente. Quando o fogo estabilizou voltei-me calmamente para encará-lo. Mirabolava coisas em minha cabeça, truques e mais truques, para não ficar, definitivamente, refém do medo, pois isto estragaria tudo.
Encarei o Homem.
Era algo grotesco. Vestia andrajos negros e escondia suas feições sob um imenso capuz, com exceção – uma exceção sinistra – de um olho... um olho... um olho vermelho e arregalado, que conseguiu gelar meus nervos de imediato. Nunca mais esqueci aquele olho. O sujeito então levantou calmamente uma de suas mãos e me apontou o dedo para em seguida pronunciar o meu nome. Era uma voz terrosa que saía daquele capuz.
- Sim sou eu – respondi com uma voz meio sumida, e emendei em seguida – E você, afinal, quem é?
- Meu nome é Portador... meu nome completo é Portador de Teus Medos. Demorei a encontrá-lo, mas finalmente estou aqui.
- Mas não por muito tempo. Gostaria que se fosse! Agora! – esbravejei.
O homem levantou-se calmamente e partiu silencioso. Tranquei a porta. Mas aquele olho vermelho ficou encravado em minha mente.
Algum tempo se passou e uma noite ao retornar à casa depois de um passeio pelo mato, vi a porta aberta e a lareira acesa. Quando entrei ele estava lá, o desgraçado do Portador! O filho da puta aquecia-se junto ao fogo. Quando recebi o olhar injetado daquele olho horrendo, tremi. Mas agora já era abuso, como assim? Aquecendo-se junto à minha lareira? O monstrengo impertinente julgava mesmo que poderia vir à qualquer hora e instalar-se tranqüilamente nas minhas coisas! Era só o que faltava!
- Vá embora agora! - ordenei com raiva – e lhe garanto, se voltar vai se dar mal! Minha paciência acabou!
O Portador, resignado, retirou-se. Tinha o andar lento e andava encurvado, além de não cheirar bem. Era uma figura nojenta e assustadora.
Depois da última visita, funesta, do Portador, cheguei a pensar em cercar a casa, mas justamente havia escolhido aquele local para me livrar das cercas! Não, não... haveria de encontrar outra solução, pois uma coisa era certa, o desgraçado sabia o caminho para minha cabana. Eu tentava também não ficar com a imagem daquele olho em minha lembrança, aquele olho arrepiante e escroto! Se cercasse a casa ou ficasse com a imagem daquele olho perturbando minha mente, saberia que o asqueroso teria vencido. Bem, se não voltasse já seria uma grande coisa, mas tinha o forte pressentimento de que voltaria... e voltou!
A porta aberta, a lareira acesa e... o nojento dormindo em minha cama! Dessa vez não agüentei! Acometido por uma raiva visceral, peguei minha adaga e me acheguei a ele.
- Hei, acorde!
O imenso olho então brotou da escuridão do capuz, sonolento e vermelho. Saltei sobre o invasor com minha faca e a enfiei com ódio naquele olho! Diversas vezes! O monstro gritava, esperneava, mas em vão. Só parei quando me certifiquei de que estava cego! Depois disso peguei aquela praga pelo braço e desci a montanha, pouco me lixando para suas gritarias e faniquitos. Deixei o Portador, que agora era portador de uma séria deficiência física, bem longe de minha montanha. Que vagasse a esmo e me esquecesse!
Finalmente à paz voltou ao meu pequeno reino. O único inconveniente é aquela mancha de sangue do lado de minha cama. Não houve jeito de removê-la... tentei de tudo, mas não deu. Logo ao lado da cama, palco do crime, como a me lembrar que aquele homem, mesmo sem o terrível olho, ainda existe e me procura. Nesses momentos olho para minha adaga, esta sim, de lâmina brilhante e limpa, e fico tranqüilo. Não me arrependo de nada. Faria de novo e de novo, faço qualquer coisa para a casa continuar assim, sem cerca em volta e freqüentada, à noite, apenas pelos sorrisos das estrelas...
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