terça-feira, 30 de outubro de 2012

Dr. Gouveia Fez Merda...


Dr. Gouveia fez merda.

E agora?

E agora Dr.Gouveia, que é muito importante, precisa limpar o que fez.

Como?

Ora, Dr, Gouveia é esperto, há de arrumar um bode expiatório, alguém com costas sujas nas quais mais merda ou menos merda dê na mesma merda...

Os funcionários de confiança do Dr. Gouveia já sabiam em quem botar a culpa. Ah, os funcionários de confiança do Dr. Gouveia, respeitável Dr. Gouveia... Ele tinha muitos amigos, mas poucos de confiança, daqueles que varrem para debaixo do tapete as merdas do Dr. Gouveia.

Esses amigos tiveram uma idéia. Conheciam um vagabundo, drogado, bêbado, desqualificado, imoral [Dr. Gouveia amava esta palavra: Moral], pária, porco... enfim, alguém cujas costas cabiam todos os piores adjetivos que se pudesse imaginar [embora Dr. Gouveia não fosse muito imaginativo] .

Era um tal de Zé da Cola. Cara criado em beco; fumador, bebedor, cheirador, ladrão, maconheiro sem-vergonha. Era só oferecer uma graninha e o Zé toparia abraçar a culpa pelo crime cometido pelo impoluto Dr. Gouveia. Não tinha erro.

E então Zé? Topa ou não topa?

Topo não senhor. Isso aí dá cana grossa... eu, bem, eu rolo por aí... fumo, bebo, cheiro, às vezes bato em alguma puta, já bati carteira, rolei em beco, fui preso por vadiagem, sou escória, sacou. Sou casca grossa, mas isso aí eu topo não, isso é coisa grande... é muita cadeia, é cadeia demais da conta.

Ora, Zé, você é um merda mesmo, o que tem a perder?

Tenho a perder minha fumada, minha cheirada, minhas putas, meus becos, minhas bebedeiras, minha vadiagem.

Então você não perde nada.

Perco tudo.

Mas Zé, perder é da vida... você, mais que ninguém, já devia saber disso.

Caramba, e como sei! Mas, e o tal doutor esse, você já disse pra ele que perder é da vida?

O doutor é um homem sério, não sabe perder. Não gosta de perder... mas você Zé, é um fodido! Pegue essa grana e assuma o crime!

Assumo não. Esta vida errada é tudo que eu tenho. Cacete! É muita maconha, crack, cocaína, cachaça, cola, puta... é muita coisa preu largar...

Você não vale nada mesmo!

Vai lá gente fina, diz pro tal doutor que seja homem uma vez na vida!

E o respeito rapaz! Você sabe de quem está falando? É o Doutor Gouveia!

Esse mesmo, diz pra ele que eu tenho tudo a perder, pois quem me vê já sabe quem sou, o que sou, seja lá que porcaria for...  minha identidade: um desqualificado! Que seja... já o tal doutor quem vê não enxerga o assassino, só enxerga o homem importante, é bom assim né?

Seu insolente! Não custa nada! O corpo... o corpo está aqui no porta-malas e...

Olha meu, diga o que quiser, mas agora vou enrolar unzinho, dar um, dois, e sair pra vida, é isso  irmão...

O doutor vai ficar furioso! 

Não é problema meu, certo?

Dias depois, Dr. Gouveia, que também era político, fez passar uma lei para limpar os becos imundos da cidade. Perseguiu, prendeu, bateu, deu sumisso em todos os vagabundos da área. Foi saudado pela população como o salvador da pátria. Dr. Gouveia aproveitou a boa maré e se candidatou a prefeito. Aos funcionários de confiança, confidenciou que de um limão fez uma limonada e que não era à toa que seu apelido agora era ‘paladino da lei’. Quanto ao defunto, dera outro encaminhamento, ninguém nunca soube de nada. Mas dizem – os funcionários de confiança - que a frustração do Dr. Gouveia pelo vagabundo desqualificado não ceder aos seus dinheiros o incomodou por muito tempo “era só o que faltava” confidenciava o doutor “era só o que faltava... não encontrar ninguém para levar a culpa, é o fim do mundo... definitivamente não dá para confiar nessa gentalha!” esbravejava com grandiloqüência, já treinando seu discurso para prefeito.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

A TRILOGIA - Prefácio


Este é um livro irreverente, haverá quem diga: ‘satânico’. Fala de individualidade e autodescoberta, mesmo que estas importem em afastar-se dos demais, esmiuçar a vida por conta própria e cometer crimes. O protagonista Renato Daemon é um escritor que resolve morar nele mesmo, e não o faz sem passar por descobertas assustadoras e mesmo avassaladoras, no intuito de incorporar sua sombra como fonte de poder. Fazer isto não é para qualquer um, requer uma atitude destemida que obviamente desagrada aqueles que têm uma leitura de mundo bastante simples, os comuns. Ele seguirá em frente, fazendo desta descoberta sua arte e confrontando este novo mundo com o mundo confortável das pessoas corriqueiras, levando isso às últimas conseqüências. Um homem solitário e corajoso que receberá o epíteto de ‘monstro’, por negar-se a refletir os comportamentos aceitos e o pensamento estagnado que aquece os acomodados e até legitima essa inércia. Mas, nem todo mundo é todo mundo, e a mim parece que esta é a equação mais difícil de resolver na cabeça da chamada ‘maioria’. O pensamento gregário reluta em aceitar a originalidade, - vide a Arte - como se esta fosse fazer desmoronar o castelo de areia que foi construído com tanto esmero e paciência para que sirva de abrigo àqueles que não tem coragem de arriscar.  A vida é muito curta e preciosa para nos darmos ao luxo de alguma vez não saltarmos na vastidão negra de nossos abismos mais profundos, mesmo que lá nosso rosto assuma feições demoníacas. Mas, afinal, a quem interessa que não realizemos essa viagem fantástica da autodescoberta? Até mesmo ameaçando-nos com noções de inferno? Deixo a pergunta no ar.  Será mesmo que os arautos da Moral, aqueles que se beneficiam com ela, não possuem vãos escuros na chamada alma? Hmmm...  Bem, Rio Cercado, a cidade onde se desenrola esta estória, é uma localidade acomodada e corriqueira, que tem seu amado sossego quebrado quando percebe que o ‘outro’, o ‘invasor’ é ‘diferente’. A autonomia é algo perigoso aos acomodados e tem de ser, ou não é nada! Sendo planificada – a cidade - e  horizontal em comportamento, é logicamente acéfala [o fato de não ter um prefeito, ou, que este seja irrelevante na história, demonstra isso], porém, o inusitado faz com que algumas nuances humanas se desvelem, e alguns rostos apareçam por detrás das máscaras. Ficar agarrado ao lado apolíneo, desprezando e anatematizando, sempre, as deliciosas artes de Dionísio, só pode gerar pessoas pela metade. Pois bem, que cada um enxergue, então, até onde esse sol de Apolo alcance, e que seja um perigoso abismo o que for para mais além. Mas que nunca se esqueçam: existem  seres que carregam imensos abismos dentro de si, que brincam com luz e escuridão com a habilidade dos mestres! São os ‘diferentes’...  os diferentes dos chamados ‘bons’. O ‘bem’ é um rótulo que abriga todo tipo de hipocrisia, e é sob essa égide, e forçação de barra platônica, que toda uma canalhice existencial se esconde, e a História não nos deixa mentir: Sade nunca matou ninguém, mas era o libertino ‘mau’, já o ‘bom’ Robespierre... [...e não estou emitindo juízo moral aqui, só demonstrando quanto se pode ser hipócrita conforme as circunstâncias]. Pois é... é tudo uma questão de perspectiva [mais uma vez, dá-lhe Nietzsche!]. Bem e Mal são conceitos manobrados de acordo com o momento histórico e as conveniências, nada mais; porém, servirão sempre como esconderijo para todo tipo de gente. Quem não pode criar-se a si próprio, abriga-se sob as coisas e conceitos criados, paciência, mas isso não torna ninguém ‘melhor’, ah, isso não. Um homem versus a Cidade, a Cidade versus um homem, taí uma luta justa, o mau Renato Daemon contra a boa Rio Cercado e vice-versa, que cada contendor use as armas de que dispõe, da maneira que melhor lhe convier.     Enfim, espero que as pessoas inteligentes entendam as metáforas contidas neste livro, as demais, gostaria que ficassem longe dele, pois não faltariam acusações ao autor, tipo: tem uma mente psicopata! Mas... pensando bem, até que isso seria divertido, então a esses eu responderia... ou melhor... seria mais divertido, também, deixar esta resposta no ar...

 

 

 

 

                                                                                                           Roberto Axe

 

                     Porto Alegre, 17 de outubro de 2009.                                         

sexta-feira, 20 de julho de 2012

MEDICALIZAÇÃO



-         Doutor, estou apavorado!

-         Calma, calma...


-         Ontem... ontem... não sei como dizer... tive... tive ímpetos criativos!

-         Putz! Isso não é bom! mas fique tranqüilo já existe remédio. Continue.


-         Pois é... eu estava assistindo televisão, como sempre, quando determinada notícia me tocou profundamente...

-         Calma lá! Como assim, “profundamente”?


-         Não sei explicar. Tocou, tocou, fazer o que? Tocou. Senti alguma coisa em minha cabeça, parecia que se mexia... era uma espécie de volúpia, algo que precisava sair. Reconheço, com vergonha, que senti prazer naquilo, sei lá... parecia que tinha algo realmente se movimentando.

-         Droga! Provavelmente um pensamento, continue.


-         Então me levantei da poltrona, coisa que nunca faço, peguei um pedaço de papel e verti minha indignação na forma, na forma... não sei como dizer isso... na forma de um poema! Pronto falei!

-         Caramba, isso não é bom, mas espero, pelo menos, que dentro de preceitos alexandrinos!


-         Sei lá o que é isso, doutor! Só me expressei, e, diga-se de passagem, preenchi cinco páginas. Eu criei, doutor, criei, vê se pode! Tem cura?

-         Já tem remédio, fique tranqüilo.


-         Ufa! Que alívio....

-         Sobre o que escreveu?


-         Bem eu questionei o ...

-         Você o quê?


-         Questionei o ...

-         Já chega, para mim está bom. Olhe, começa assim, questiona ali, questiona aqui e daqui um pouco você corre o risco de adquirir ‘pensamento crítico’, e lhe garanto, taí uma moléstia difícil de sanar. Bem, você está com sintomas de tendência criativa, está no começo dá para curar. Vou lhe receitar alguns remédios que você sempre encontrará em qualquer farmácia, mas lembre-se: a loucura começa assim, hein? E mais, nunca, em hipótese alguma leia Foucault, entendido?

-         Ler quem?


-         Nada, nada, deixa pra lá.

-         Mas não é tudo, doutor.


-         Não acredito, tem mais?

-         Sim, é que...bem, como o senhor pode ver, sou um homem já em idade avançada, pois é... pasme doutor... eu... eu... eu... eu nunca broxei! e pior, minha libido tá sempre a mil! Estou muito preocupado, doutor, muito preocupado, não é normal isso na minha idade...


-         Não é normal, mas não se envergonhe, já tem remédio, fique tranqüilo... já tem remédio...

quarta-feira, 18 de julho de 2012

O INIMIGO

O INIMIGO VAI VOLTAR!


 Esta frase grifada em vermelho na parede enegrecida da repartição às vezes instigava a imaginação de Júlio. Em meio ao bate-bate das máquinas de escrever, que não paravam nunca, Júlio às vezes raciocinava... “O Inimigo vai voltar...” O inimigo vai voltar? Mas... o inimigo já andou entre nós? Como assim vai voltar? Afinal, quem é o inimigo? Esses devaneios lhe causavam vergonha, pois sempre os interrompia quando percebia que o som sempre sério das máquinas havia parado, e seus colegas, sentados às suas mesas, o fitavam de maneira estranha.

 Olhos mortos.

 A repartição era escura, quase não tinha cor [seja lá o que isso – cor - quisesse dizer], Júlio não conhecia essas coisas, apenas batia relatórios em sua velha máquina... tac tac tac tac tac tac e então uma sensação de segurança lhe acalentava a alma, era um tac tac tac tac tac tac tac em consonância com os demais, era algo harmônico , todos juntos tac tac tac...

 O Inimigo vai voltar...

 “Como assim? Quem é ele? Quem é ele?” Seu olhar perdido no nada... “Quem é ele?”

 Pronto. Máquinas paradas. Mais uma vez o peso dos olhares sobre si.

 Olhos mortos.

 Desconforto total.Um colega se pôs em pé, perfilado feito um militar, e em seguida retirou-se da sala. Sem demora já estava de volta acompanhado do chefe; este botou a mão no ombro de Júlio e fez um sinal com a cabeça. Saíram. As máquinas retomaram seus ritmos monocórdios... tac tac tac tac tac tac...

 Já na sala do chefe, este o inquiriu. “Afinal? O que estava havendo com ele, Júlio, sempre funcionário tão bom? Não era admissível desviar os olhos das tarefas, ou seja, dos relatórios, e perder-se em pensamentos, com o olhar solto no nada, como assim? E as tarefas? E as tarefas? Que tomasse jeito então, afinal, isso não parecia bom exemplo para os demais.“Já pode ir”

 Tac tac tac tac tac tac...

 Mas aquela frase na parede não lhe saía da cabeça.

 Cabeça?

 Cabeça?

 Cabeça,

 cabeça, cabeça, cabeça tac tac tac tac... Por que um inimigo? Quem poderia ser inimigo daqueles inócuos relatórios? Daquelas pessoas cabisbaixas tão ciosas de seus afazeres. Afinal, às dezoito horas – sempre, sempre - tocava a sirene e todos rumavam ordeiros para suas casas, jantavam e deitavam suas cabeças em seus travesseiros... suas cabeças? cabeças? cabeças, cabeças, tac tac tac...

 Dezoito horas. Sirene.

 Naquele dia Júlio não foi para casa.
 Bebeu vinho
 perambulou
 pensou
 riu
riu mais
bebeu mais vinho
caminhou
 correu
 pulou
sonhou
 dormiu de ressaca...

 Oito da manhã. Sirene.

 Tac tac tac tac tac tac...

 Júlio sentiu a mão do chefe em seu ombro; levantou-se e acompanhado daquele homem taciturno e mal-encarado, desapareceu pela porta. Minutos depois a senhora da limpeza entrou na repartição com balde, esfregão, e indiferença; então esfregou, esfregou, até desaparecer os dizeres da parede. Ninguém desviou os olhos dos relatórios.

 Tac tac tac tac tac tac...

 Júlio nunca mais foi visto.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

A ROUPA DO MORTO

...e eu aqui deitado imóvel parado... devidamente paramentado, com gente deste e daquele lado...vejo rostos desconsolados [e outros meio gozados...] Cabeças que me olham do alto...A Vera tá usando salto? Tem gente que não conheci, tem outros que não vejo aqui, não sabem que morri. Sinto-me um pouco humilhado, por todos assim olhado. E a roupa com a qual me vestiram? Tiveram nenhum cuidado! Até o sapato se duvidar tá furado! E lá fora? Ou muito me engano ou é gargalhada! É gente contando piada! Ou... [é só o que faltava] a sola do meu sapato... tá mesmo arruinada! Agora me encara a Rosinha, putinha, alisa minha gravata, que me deu de presente em não me lembro que data; se a patroa descobre me mata! - Ops! Em tempo a errata! E o Osório, coitado, deixou este paletó por lágrimas melado; quantas vezes no meu ombro chorou seus infortúnios, o desgraçado. Levo comigo seu DNA desconsolado - mas hoje não vi lágrima cair do teu olho, danado! ...e esta minha camisa, que usei na formatura da minha filha, quem diria, me acompanhará na escura e fria trilha... [Falar nisso, cadê a Marília?] ...e minhas cuecas, putz! Me puseram uma “samba-canção” talvez pra santificar o defunto, que quando morto vira santo... ahã, nessa não caio não. E esse de pé aqui ao lado, ri miudinho, o putinho, ainda vai me derrubar a porra do cafezinho! Entornar em minhas calças, presente da patroa que garantiu, ficaram boas pra eu usar no próximo verão. Calça boa, de algodão. Pra onde vou, amor, preciso de calça não! Mas vá lá... prêmio consolação. Até minhas meias, que comprei em Paris, [ah os bons tempos...] parecem rir nos meus pés como quem diz: “me compraste por me achares grossa e quente, para aquecer os teus pés, seu mentiroso demente!Olha agora a ‘fria’ em puseste a gente! “ Até um lencinho de seda, mimo singelo de meu casamento, está aqui no meu bolso, murchando triste e lento... – Vai comigo meu filho, lamento... lamento... Estranha essa gente, olha pra mim, pra minha roupa, e comentários não poupa: “Não tava bem o finado; olha só, o sapato furado” ou “Esse paletó tá danado!”. É, mas quando ainda vivia, e de dinheiro não carecia, tirei muita gente de fria! É... os vivos têm cada mania! e... Tem gente que entra e tem gente que sai. Tem gente que vem e tem gente que vai. Tem quem não se dê conta, que se distrai, e por curiosidade se trai; toca na mão do morto pra sentir a temperatura... acaricia, sente a textura... Opa! Agora gostei! Vejo aproximar-se pequena multidão. Finalmente! Choram, gemem, vejo até empurrão. Na certa reconheceram no morto o bom cidadão! Que bom! Que bom! É pingo de lágrima na lapela, é beijo, beijinho, beijão! Mas... Pura ilusão... é só o momento de fechar o caixão... [A todos peço perdão, por encerrar esse relato assim, de supetão!]

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

DOSADOR

Bebendo só
em um bar chalaça
há de se medir
o tom da cachaça

A primeira dose
abre a mente
assim, de mansinho,
num crescente

A segunda dose
já alegra a alma
que já pensa numa terceira
com alegria e calma

A terceira traz bate-papo
com a mesa do lado
‘valeu gente fina,
falou ta falado!’

A quarta é a dos abraços
do riso alto, da alegria
que venha mais uma!
Coisa boa a euforia!

A quinta é dos infernos!
Êta que tá boa!
Fala bastante
conversa à toa

A sexta já vem um pouco azeda
té parece discussão
todo mundo fala
ninguém tem razão

A sétima tem gosto de sangue
de tapa, safanão
de gente valente
cabe uma oitava, como não?

A oitava...
A oitava...

Tem a forma de fio de faca
que bêbado tem cu na estaca!
Turma do deixa disso...
‘qualé a tua babaca!’

‘Quer toma mais uma?
Procura outro bar!’
Avisa o bodegueiro
com o dedo no ar

Eu volto
e vou matar todo mundo!
que eu sou trabalhador
não sou vagabundo!

E caminha na rua
de pé trocado
e pensa vingança
‘foi dado o recado!’

Minha faca, minha faca!
Minha faca, minha faca!
Cai duro em um canto
o resto é ressaca...

Roberto Axe

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

O QUASE MORTO E O QUASE VIVO

O homem quase-morto recebeu seu amigo quase-vivo.

O homem quase-morto estava quase morto.

Estava em uma cama de hospital, nas últimas.

O homem quase-vivo estava aflito:

– Aquela mulher acabou comigo! – disse com um pouco de raiva – Desgraçada! Se ela pensa que darei o braço a torcer está muito enganada! Caramba o que eu faço? Sou louco por ela! me ajude, diga alguma coisa! Você nunca me deu um conselho na vida! Um, que seja... que amigo você é, hein? Só me lembro daquela baboseira que me disse certa vez de que não deveríamos ser carregados no colo quando andamos em nossa própria estrada, sei lá, ou coisa parecida.... Você sempre foi meio enigmático...

O homem quase-morto sorriu.

- Bem, estou para iniciar um novo negócio, o que você acha? Sim, eu sei, são tempos difíceis coisa e tal... mas quem não arrisca... né? Sei lá... o que você acha? Diz alguma coisa, porra! Qualquer coisa! Nem que seja da minha camisa, paguei duzentos paus nela! Bonita? Diz aí! Bonita?

O homem quase-morto sorriu.

- Você está me irritando, meu! Esse silêncio está me irritando... Diga-me o que achou do meu bronzeado? – o homem quase-vivo abriu a alguns botões de sua camisa nova de duzentos paus deixando o peito à mostra – Veja, que bronzeado, hein? É que estive na praia no fim de semana, cara, que mulherada! Pensei em você... sim, eu penso em você, seu ingrato! Gostaria que estivesse comigo, ah... que mar! Azul, azul, você precisava ver. Sim, o lugar ideal para me divertir e esquecer aquela cadela! Você não acha? O que me diz?

O homem quase-morto sorriu, depois riu e depois tossiu.

O homem quase-vivo foi até a janela e olhando para fora comentou:

- Ah, que dia! A noite vai ser boa! Vou encher os cornos hoje à noite, tomar todas, eu mereço né compadre, é ou não é? Mereço ou não mereço? Claro que mereço, porra! Com tudo isso que ando passando por causa daquela vagabunda! Aquela vagabunda! Mas até que é gostosa, né? Hehehehe... eu sou foda, meu! Você sabe, não preciso repetir. Olha, enchi o saco! Você aí, não me diz nada, não me dá um bom conselho, daqueles que só os bons amigos dão... nem isso você faz! Sinto que estou é perdendo meu tempo aqui, fui!

O homem quase-vivo saiu do quarto e o homem quase-morto ficou por muito, muito tempo fitando a parede branca.

Os minutos foram passando, depois as horas...

O homem-quase-morto, quieto, imóvel, enfim morreu.

Mais vivo do que nunca...

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

NADA INTERESSA A ELES...

Nada interessa a eles...

Se não for manipulável
Se não for comprável
Se não for tributável
Se não for corruptível
Se não for arrecadável
Se não for usurpável
Se não for delineável
Se não der pra sugar
Se não render juros
Se não der lucro
Se não der voto

Nada interessa a eles...

Se não for alinhado
Se não for alienado
Se não for endividado
Se não for marcado
Se não for bem-mandado
Se não for gado

Nada interessa a eles...

Se não for lugar-comum
Se não for medíocre
Se não for baixo
Se não for capacho
Se não der pra manipular
Se não der pra tirar
Se não der pra enganar
Se não der pra ludibriar
Se não der pra abraçar
Se não der pra se roçar
Se não der pra morder
Se não se deixar doer
Se não se deixar roer
Se não se deixar morrer
Se não crer

Nada interessa a eles...

Se não for indecente
Se não for complacente
Se não for doente
Se não for meramente
Se não for condescendente
Se não for indolente
Se não for pequeno
Se for em frente
Se tiver em mente
Se tiver um pingo de dignidade
Se não tiver interesse na amizade
Se tiver uma sobra de hombridade
Se tiver, ainda, alguma honradez
Se não quiser trapacear
Se tiver firmeza
Se não se deixar corromper

Nada interessa a eles...

Se tiver aquilo... que eles não têm


Roberto Axe

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

O DIA EM QUE O MEU SUBCONSCIENTE OUVIU POUCAS E BOAS!

Percebi logo que era um sonho e me deixei levar de imediato pela beleza do local. Eu caminhava por uma rua ensolarada e movimentada em que prédios antigos ostentavam uma arquitetura de beleza antiga e sem igual; tudo era sereno no sonho, apesar do movimento da rua. Saint Germain des-Prés! Comemorei; sim, estou em Paris! Quem sabe na próxima esquina encontro o lendário Les Deux Magots? Ou mais, em se tratando de um sonho, quem sabe não encontro Henry Miller vagando durango e sonhador, e enchemos a cara em algum bar! Ora, quem sabe na próxima esquina não esteja uma rua encravada nos anos quarenta? ou trinta? Os existencialistas! Mme du Beauvoir, Sartre, Camus! O fantástico Artaud, mais louco do que nunca! Quem sabe Breton! Os surrealistas, os dadaístas! Ou ainda Hemingway bêbado, ao mirar o nada sentado à beira de uma calçada! Afinal, festejei, sonho é sonho não é mesmo? Prossegui caminhando lentamente, inebriado por esses pensamentos quando aos poucos fui percebendo que alguém me seguia cantando. Prestei atenção na música:

Voar voar, subir subir, ir por onde for
Descer até o Sol cair, ou mudar de cor
Anjos de cais, azas de ilusão
E um sonho audaz feito um balão...


Virei-me e dei de cara com o cantor Biafra! O cara me seguia cantando, e me olhava com doçura como se dedicasse sua cantiga só para mim! Continuei andando, tentando não dar bola para aquilo, mas o cantor não me largava....

Luar, luar eu sou assim brilho do farol
Além do mais amar até o fim simplesmente sol
Rock do bom ou quem sabe jazz
Som sobre som bem mais bem mais...


Pronto! Agora eu andava por Paris com Biafra cantando atrás de mim! ‘Belo sonho!’ Mas, para minha sorte encontrei uma cabine telefônica, entrei correndo e fechei a porta. Biafra parou também e ficou cantando do lado de fora, sem tirar seus olhos de mim. Peguei o telefone, indignado, e liguei sem demora para meu subconsciente. O cara atendeu do outro lado:

- Alô.

- Vem cá, meu! Que palhaçada é essa? – esbravejai.


- Tô entendendo não, meu irmão....

- Botar o Biafra cantando atrás de mim enquanto ando por Paris! De onde tirou essa idéia!


- Ah, sim, não me leve a mal... mas é que você achou graça daquele comercial do carro lembra? Que o ladrão não agüenta o Biafra no banco de trás e foge deixando o carro abandonado na rua. Achei que você iria gostar, pô! Que cara difícil de agradar esse!

- Você tá de gozação comigo, eu te conheço...


- Quem me conhece é o papai Freud, mais ninguém! Tá se achando, é? Olhe, não brinque comigo, você não me conhece... aliás, faz horas que você não lê Freud, e não preciso lhe dizer que adoro dormir escutando os textos de papai.

- Cara, não tenho tempo para conversa fiada, tire o Biafra do meu sonho, agora! – ordenei com raiva.


- Ei,ei,ei calma aí! Pensa que você é quem manda? Tá enganado, mano! Ou já esqueceu daquela broxada com a morena fantástica aquela? Pois é, você havia me irritado uns dias antes, então fui obrigado a mandar um ‘recadinho’ aí pra cima, hehehe....

- Olhe, olhe, - procurei me acalmar, pois realmente o danado tinha lá seus poderes – não estou lhe pedindo muito... Paris. OK. Gostei, mas porra! Biafra, irmão!


- Já lhe expliquei... o comercial aquele... achei que ia gostar...

- Mas não gostei! Certo?


- Olha, você está me deixando irritado, e se eu me irritar... sabe como é... transformo tudo isso aí num pesadelo horroroso, não mexa comigo!

- Ah, você quer me desafiar, é isso? Pois saiba que não tenho medo de você!


- Ah não? Sou seu subconsciente esqueceu? Não brinque comigo rapaz! Você não sabe do que sou capaz!

- Vai fazer o quê, imbecil? O que pode ser pior do que o Biafra me seguindo por Paris? Vá pro inferno! – desliguei o telefone irritado e saí da cabine, que para minha surpresa estava no palco do programa da Hebe! e a própria me aguardava! A apresentadora apertou minhas bochechas, para delírio do auditório lotado!


- Coisa mais linda de se ‘viver’! – disse a Hebe – diz aí, meu auditório, ele não fica mais bonito assim brabinho? – o auditório então entrou em delírio, num frenesi dos diabos! – Brabinho! Brabinho! – repetiam batendo palmas. Retornei para a cabine furioso, fechei a porta e liguei pro filho da puta! Mas a partir daqui não posso prosseguir meu relato, pois as palavras que se seguiram são impublicáveis.